Por que acordo de cessar-fogo com EUA não caiu bem entre a linha-dura do Irã

Crédito, EPA

Legenda da foto, Apoiadores do establishment clerical do Irã se reuniram em uma praça no centro de Teerã na quarta-feira
    • Author, Kasra Naji
    • Role, Correspondente especial da BBC News Persa
  • Tempo de leitura: 4 min

Apenas alguns dias atrás, setores mais "linha-dura" da República Islâmica do Irã colocaram uma faixa gigantesca em um dos cruzamentos mais movimentados de Teerã, a capital iraniana.

"O estreito de Ormuz permanecerá fechado", declarava.

A mensagem pretendia sinalizar um decreto do novo Líder Supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que não foi visto em público desde que foi nomeado líder no mês passado.

Mas essa faixa pode agora ter de ser retirada depois que o Irã concordou com um cessar-fogo de duas semanas e com a reabertura do estreito, conforme solicitado pelo Paquistão, que vem mediando entre os EUA e o Irã.

Isso apesar de o Irã ter dito repetidamente que não concordaria com um cessar-fogo temporário e que queria um fim permanente da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã.

Os linha-dura não estão satisfeitos. Eles se sentiram encorajados pela capacidade do Irã de fechar o estreito e causar caos aos países do Golfo com mísseis e drones — sustentando que o Irã deveria ter continuado a guerra, já que tinha vantagem contra os EUA e Israel.

Relatos de Teerã disseram que bandeiras dos EUA e de Israel foram vistas sendo incendiadas após o anúncio do acordo de cessar-fogo na terça-feira.

Um grupo de homens da milícia voluntária Basij, controlada pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), marchou até o Ministério das Relações Exteriores no meio da noite para se opor à decisão.

Algumas horas depois, o editor do jornal linha-dura Kayhan escreveu que concordar com o cessar-fogo foi "um presente para o inimigo", permitindo que ele se reabastecesse e continuasse a guerra.

A decisão de aceitar o pedido do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e de seu chefe do Exército foi tomada pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC, na sigla em inglês) — o mais alto órgão decisório do Irã sob o líder supremo, presidido pelo presidente moderado Masoud Pezeshkian.

O SNSC declarou que a passagem segura seria possível pelo estreito de Ormuz por um período de duas semanas em troca de um cessar-fogo dos EUA e de Israel, enquanto Washington e Teerã se engajariam em negociações.

Relatos dizem que a China desempenhou um papel significativo ao convencer o Irã, seu aliado próximo, a concordar com o pedido do Paquistão.

Alívio temporário?

Crédito, AFP via Getty Images

Legenda da foto, O Paquistão vai sediar conversas de paz entre os EUA e o Irã em Islamabad na sexta-feira
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O Irã teve de amargar um considerrável nível de destruição nos 40 dias de guerra.

Mais de 3 mil pessoas morreram, dizem ativistas de direitos humanos, e o presidente dos EUA, Donald Trump, havia ameaçado novas mortes e destruição em uma escala ainda maior.

Mesmo entre os linha-dura, estava ficando claro que uma saída precisava ser encontrada antes que a infraestrutura crítica do Irã fosse ainda mais destruída.

Apenas horas antes do anúncio do cessar-fogo, o chefe do Judiciário, Gholamhossein Mohseni Ejei, tido como linha-dura, disse à TV estatal iraniana que o Irã buscava o fim da guerra mantendo ainda uma posição de vantagem.

Ele estava, em linhas gerais, repetindo o que o ex-ministro das Relações Exteriores do país, Mohammad Javad Zarif, um moderado, havia escrito alguns dias antes em um artigo na publicação americana Foreign Affairs.

O SNSC retratou o acordo de cessar-fogo como uma vitória para o Irã, conclamando os apoiadores do regime a permanecerem unidos.

Segundo a mídia iraniana, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, deverá liderar a delegação iraniana nas negociações com os EUA em Islamabad, no Paquistão, negociando diretamente com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance.

Isso representa um distanciamento do roteiro linha-dura. As negociações diretas com os EUA sempre haviam sido proibidas pelo antigo Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que foi morto em um ataque israelense à sua casa no início da guerra.

Esse contato direto parece ter sido autorizado pelo novo líder, que é seu filho.

Apesar do cessar-fogo, Irã e EUA permanecem longe de uma paz duradoura.

A guerra pode ser retomada se as negociações fracassarem. Essa é uma perspectiva que alguns iranianos que apoiaram a guerra, vendo-a como uma forma de remover o que consideram um regime vil, podem estar esperando.

Para muitos outros, o cessar-fogo oferece um alívio muito necessário diante da morte e da destruição ao seu redor.

Este texto foi traduzido e revisado por nossos jornalistas utilizando o auxílio de IA, como parte de um projeto piloto