'Brasil é o país da comédia, das historinhas novelescas, fazer terror não é fácil': a escritora brasileira finalista de um dos mais importantes prêmios do mundo

A autora ANa Paula Maia. Ela tem cabelos escuros e ondulados. Veste uma jaqueta de couro preta.

Crédito, Pablo Contreras

  • Tempo de leitura: 12 min

Ana Paula Maia é a única representante do Brasil e da América Latina entre os seis finalistas do International Booker Prize, um dos prêmios literários mais prestigiosos do mundo, que reconhece obras de ficção traduzidas para o inglês e publicadas no Reino Unido ou na Irlanda.

Maia concorre com a versão em inglês de Assim na terra como embaixo da terra, lançado no Brasil em 2017 pela editora Record e traduzido como On Earth As It Is Beneath. O romance explora o cotidiano de uma colônia penal em seus últimos dias de funcionamento, que gradualmente se transforma em um espaço de extermínio nas mãos de um carcereiro sádico.

Original de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, a fluminense é apenas a segunda brasileira finalista do Booker Prize, após Itamar Vieira Junior, em 2024, por Torto arado.

"Eu adoro estar entre os finalistas com um livro considerado de terror. Isso dá um prazer para a Ana Paula criança, sabe?", celebrou a escritora e roteirista em entrevista à BBC News Brasil.

Publicada em mais de dez países, entre os quais Argentina, Espanha, Inglaterra e Itália, Maia construiu sua carreira com uma prosa que mistura noir e western para explorar histórias ambientadas em abatedouros, presídios, crematórios e estradas esquecidas.

Aos 48 anos, diz visto sua carreira decolar após ter seus livros traduzidos para o espanhol. Segundo ela, o olhar estrangeiro lê seus livros de forma diferente do leitor brasileiro.

No Brasil, o terror encontra muita resistência, diz. "Fazer terror e horror no país da comédia já não é fácil, e quando é literatura fica mais difícil ainda."

"Eu sei que trabalho um gênero que não é o mais consumido. Até para emplacar um filminho de terror de gênero, querer se aprofundar um pouco em camadas mais perturbadoras é difícil."

Capa do livro 'Assim na terra como embaixo da terra', em português, da editora Record

Crédito, Record/Divulgação

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"Daí eu comecei a ter muito mais alcance fora. Comecei pela Argentina, que me abraçou, me deu um espaço que eu não tinha e passou a me ler de uma maneira que eu não era lida aqui", diz.

Mas a escritora afirma não sentir falta de reconhecimento em seu país natal e se diz grata pela base de fãs pequena, mas fiel, que conqusitou ao longo dos anos.

"Nesses 23 anos publicando, eu sempre estive um tanto solitária, principalmente enquanto mulher em um ambiente de coisas esquisitas – porque eu sei que escrevo sobre coisas esquisitas. Para mim elas não são, mas eu entendo que para a maioria das pessoas é estranho."

Filha de uma professora de português, Ana Paula Maia diz ter sido atraída para a escrita após uma infância dentro de casa, cercada de livros e em frente à televisão.

Além de Assim na terra como embaixo da terra, a autora tem em seu currículo obras como De Gados e Homens e Enterre Seus Mortos, que foi adaptado para o cinema em 2024 e ganhou o prêmio São Paulo de Literatura em 2019.

Maia também atua como roteirista e assinou a série de terror folclórico Desalma, da Globoplay.

"Eu escrevi Desalma, uma série de folk horror que eu acho maravilhosa, mas que está meio escondida. Fica lá, ninguém fala… É o país do futebol, da comédia, das historinhas novelescas, entendeu? É outra coisa. E está tudo certo. E vou continuar fazendo as minhas historinhas como eu acredito", desabafou, na entrevista.

Para ela, o flerte com o sobrenatural e a brutalidade do mundo presente em suas obras pode ter alavancado seu trabalho até o Booker Prize.

"O mundo está louco, e quando a ciência já não está dando mais conta de explicar muita coisa, o sobrenatural começa a ganhar espaço", reflete.

"O melhor lugar hoje para se falar sobre a sociedade é o gênero terror. É o lugar que consegue captar melhor tudo que a gente a gente vive nessa sociedade maluca, violenta, estranha."

O vencedor do International Booker Prize será anunciado em 19 de maio em uma cerimônia em Londres, na Inglaterra. A brasileira concorre com livros escritos em alemão, búlgaro, francês e mandarim.

Entre os vencedores de edições anteriores do prêmio estão Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Han Kang e Philip Roth.

Confira, a seguir, a entrevista completa com Ana Paula Maia, editada para maior clareza e concisão.

BBC News Brasil - O que te atrai no genêro terror?

Ana Paula Maia - Eu nasci nos anos no finalzinho dos anos 70 e fui criança nos anos 80, em uma época em que não existia filtro e criança via qualquer coisa. Cresci vendo todo tipo de filme de terror que você pode imaginar. E naturalmente a minha literatura sempre flertou muito com a morte. Um autor que me influenciou muito no início da minha escrita foi o Edgar Allan Poe, por exemplo.

BBC News Brasil - Esses temas de alguma maneira se relacionam com a sua vida pessoal? Ou é um interesse puramente profissional?

Maia - Acho até que de repente se relaciona, mas não posso contar [como]. Nossa literatura tem muito da nossa essência, né? Eu me conecto com muita coisa, o que eu escrevo não é algo tão armado, é algo sentido também. Mas eu só trato publicamente das questões ficcionais.

BBC News Brasil - Os personagens e os planos de fundo são inspirados de alguma maneira em acontecimentos da vida real, do Brasil ou de outros lugares?

Maia - Em parte sim. O pontapé inicial é geralmente definir o personagem e o que ele faz. Nossa profissão define muito quem a gente é, o ambiente em que vivemos ou a forma como agimos e reagimos. E todos os protagonistas dos meus livros, principalmente os recorrentes, têm uma conexão direta comigo. São alteregos, é impossível dizer que não. Todo escritor que insiste no mesmo personagem tem alguma conexão muito profunda, sei lá, telepática, espiritual ou sobrenatural com ele.

E você perguntou também sobre a vida real. Todos os meus livros tem pesquisa. Pelo menos alguns elementos vêm de notícias que li no jornal, que aconteceram em uma área rural, sei lá, no interior do Tocantins. Eu gosto muito, por exemplo, da paisagem do Mato Grosso do Sul, da fronteira com o Paraná. O meu olho corre muito para o interior, para a estrada, para o homem mais rústico. E isso sempre esteve na contramão da literatura brasileira. Nesses 23 anos publicando, eu sempre estive um tanto solitária, principalmente enquanto mulher em um ambiente de coisas esquisitas – porque eu sei que escrevo sobre coisas esquisitas. Para mim elas não são, mas eu entendo que para a maioria das pessoas é estranho.

BBC News Brasil - No caso de Assim na terra como embaixo da terra, por que você escolheu o ambiente prisional como tema principal?

Maia - Eu sempre fui muito fã do estilo western [faroeste, em português], cresci assistindo esses filmes e eles fizeram parte da minha formação como escritora. A Clarice Lispector não me influenciou, mas o Sergio Leone me influenciou. Acho importante dizer isso porque às vezes o caminho que seguimos não é tão convencional, não tem uma cartilha óbvia. E eu nunca tive nenhum problema em dizer isso.

Mas eu queria escrever algo que conversasse com o western e se passasse em um espaço de confinamento. E aqui no Paraná existe uma colônia penal agrícola, acho que é a única do Brasil em funcionamento. Ao mesmo tempo, quando eu era criança sempre assistia a um filme chamado Alcatraz: Fuga Impossível, com o Clint Eastwood. Eu cresci sobre esse imaginário, e sobre uma égida pós-ditadura, e acabei absorvendo muito desse mundo de caçadas humanas.

E quando eu começo a escrever uma história, ao longo do processo, novas questões vão entrando: questões filosóficas, questões políticas, do mundo, da relação humana, dos espaços de convivência, da subjugação… Às vezes nem eu percebo certas coisas, só vejo depois que já está escrito.

As vencedoras do Booker Prize de 2025, Banu Mushtaq e Deepa Bhasthi, autora e tradutora de Heart Lamp, durante a cerimônia de premiação em Londres

Crédito, Divulgação

Legenda da foto, As vencedoras do Booker Prize de 2025, Banu Mushtaq e Deepa Bhasthi, autora e tradutora de Heart Lamp, durante a cerimônia de premiação em Londres

BBC News Brasil - A violência e a brutalidade estão sempre presentes nos seus livros. Por que trazer esses temas para a ficção quando a vida real e o noticíário já andam bastante violentos?

Maia - Eu não poderia e não saberia escrever outra coisa. É só mesmo uma questão de capacidade: só consigo escrever sobre o que eu escrevo, sabe? E eu não cogito escrever sobre outra coisa, só vou no fluxo.

BBC News Brasil - Algumas das passagens e descrições dos seus livros chegam a embrulhar o estômago. É desgastante emocionalmente para você, como autora, mergulhar nesses universos e escrever sobre eles?

Maia - É desgastante, mas é viciante também. A única coisa que me move e me dá prazer de escrever é isso. Eu não conseguiria escreve uma história mais suave ou leve. Eu preciso entrar nesse buraco bem fundo – depois de um tempo saio, dou uma respirada, mas logo entro nele de novo. É isso que me traz realmente um sentido para escrever.

Mas eu não acho muito pesado. Tem coisas que me impactam mais, mas geralmente não por medo, mas porque eu tenho vontade de chorar com a história de alguns dos personagens. Eu tenho muito mais apego emocional e afetivo pelos meus personagens do que a sensação de embrulhar o estômago quando escrevo uma cena. Nada aqui me embrulha o estômago, eu sou feita para escrever sobre isso.

BBC News Brasil - Muitos dos seus personagens são descritos como pessoas más, cometeram assassinatos ou são propensos à crueldade. Há intenção de refletir sobre a natureza humana e a influência do ambiente nas escolhas que tomamos?

Maia - Acho que é exatamente isso: eu escrevo sobre a natureza humana. A origem do mal é uma coisa que eu sempre tentei entender. Quando criança assisti a muitos filmes sobre criança má, que discutiam essa ideia de se você nasce mal ou não. Esse tema sempre me pegou muito e tenho minhas teorias pessoais a respeito, que não divulgo, no máximo escrevo sobre.

Mas também não considero os meus personagens maus. Cascas-grossas, mas não maus. Por que como sobreviver a esse mundo sem ser casca grossa? E o que seria de nós se não fossem os cascas-grossas para resolver algum problema? Eles são os caras que fazem o trabalho sujo dos outros. E eu gosto deles, me identifico, me simpatizo. Talvez eu tenha sido um casca grossa numa outra vida, sei lá…

BBC News Brasil - Se considera uma mulher negra? Sua identidade racial influencia na forma como escreve?

Maia - Me considero sim. Meu pai é negro, minha mãe é branca e eu tenho uma bisavó indígena. Eu me vejo em todos os meus personagens, porque carrego essa tríade étnica em mim. E eu não só carrego, como eu realmente reconheço essa tríade.

Eu sou um produto que não existiria há algumas décadas atrás. Mas mais do que isso, eu sou uma consciência que carrega outras consciências e que se move. Eu vejo o mundo de uma maneira que eu consigo me identificar com gente daqui e com gente do outro lado. Nunca tive barreiras limitantes dentro de mim, eu escrevo sobre o que quero, vou onde eu quero e faço o que eu quero.

Eu escrevo sobre coisas muito estranhas. E hoje a minha literatura encontra pares pelo mundo, mas uns anos atrás ela não encontrava. No Brasil ainda tem dificuldade, mas em outras partes do mundo ela já encontra.

Ana Paula Maia, usando casaco bege

Crédito, Pablo Contreras

BBC News Brasil - Falando agora sobre a seleção para o International Booker Prize. O que acha que fez com que seu livro fosse tão longe no concurso? Por que o seu livro?

Maia - Primeiro, ele flerta com o sobrenatural, que é um assunto que está em alta e presente em muitos dos livros indicados ao Booker Prize. E por que está em alta? Porque o mundo está louco, e quando a ciência já não está dando mais conta de explicar muita coisa, o sobrenatural começa a ganhar espaço.

Segundo, é uma caçada humana, é gente caçando gente. Vivemos um momento do mundo em que gente está caçando gente também. Sem contar a questão da brutalidade, que está ali nas entrelinhas e que é importante, de fato, ler.

É também uma história de um espaço de confinamento, de questões de opressão. E o mundo é uma prisão, né? A gente vive numa colônia penal, sempre fugindo de alguém, fugindo de ser assaltado, fugindo do golpista, fugindo disso, fugindo daquilo, tentando se proteger. Às vezes quem você mais confia é quem vai te caçar e te matar, como temos visto no noticiário.

BBC News Brasil - O que significa para a senhora estar entre os finalistas?

Maia - Eu adoro estar entre os finalistas com um livro considerado de terror. Isso dá um prazer para a Ana Paula criança, sabe? Eu, que era tão fã de Sexta-feira 13 e Poltergeist quando garota, dei certo. Deu certo! A minha comemoração é muito mais íntima.

E é um reconhecimento de um trabalho né? Você vê que está no caminho certo e que valeu a pena ter se mantido nele. E valeria a pena mesmo que eu não tivesse sido indicada ao prêmio.

BBC News Brasil - O que ainda impede uma presença mais constante de autores brasileiros em prêmios internacionais?

Maia - Não é pela qualidade do texto né? Tem muita qualidade. Não sei se é a temática, ou se as histórias não tem um poder universal… Meus livros abraçam mais universalmente. E até às vezes dão mais certo em outros países do que aqui. Mas também não tem uma conta para isso. Não posso chegar e dizer assim: "Ó, fiz assim porque ia atingir o público na Croácia". Mentira, você não sabe, você só vai fazendo. Mas acho se a gente falasse espanhol, talvez tivéssemos mais mais abertura, porque o postuguês não faz fronteiras e acabamos ficando meio isolados.

BBC News Brasil - O olhar estrangeiro lê seus livros de forma diferente do leitor brasileiro?

Maia - Totalmente diferente. Lê de forma mais aprofundada, até porque a Europa - mas não só lá - tem uma relação mais forte com a guerra, historicamente. Então acho que meus livros batem lá de uma maneira que incomoda mais e comunica diferente.

No Brasil não. Primeiramente que aqui o gênero horror já encontra muita resistência. As histórias mais suaves e mais leves são mais queridas, o Brasil é o país do futebol e da comédia. Fazer terror e horror no país da comédia já não é fácil, e quando é literatura fica mais difícil ainda.

Eu sei que trabalho um gênero que não é o mais consumido. Até para emplacar um filminho de terror de gênero, querer se aprofundar um pouco em camadas mais perturbadoras é difícil. Daí eu comecei a ter muito mais alcance fora. Comecei pela Argentina, que me abraçou, me deu um espaço que eu não tinha e passou a me ler de uma maneira que eu não era lida aqui.

BBC News Brasil - Você sente falta de um reconhecimento maior dentro do Brasil?

Maia - Não. Já sou muito grata assim. Entendo que não seja o formato mais absorvido. As pessoas têm que consumir aquilo que elas querem consumir, se não é o perfil, não tem problema não, batalhamos em outros territórios.

Eu escrevi Desalma, uma série de folk horror que eu acho maravilhosa, mas que está meio escondida. Fica lá, ninguém fala… É o país do futebol, da comédia, das historinhas novelescas, entendeu? É outra coisa. E está tudo certo. E vou continuar fazendo as minhas historinhas como eu acredito.

Agora, o público que vem é fiel, levanta bandeira, é isso que eu gosto. Esse vale a pena.

E esse reconhecimento passa. Tudo passa. Eu estou muito mais focada em escrever aquilo que eu acredito, em ter um editor que acredita no que eu escrevo para poder me publicar direitinho e uma meia dúzia de leitores que me leem felizes, esperando o próximo livro. Quem quer reconhecimento nem faz terror.

BBC News Brasil - A literatura latino-americana de terror tem aberto as portas para diversas autoras mulheres, que fazem muito sucesso nesse gênero. Há algo em especial que faz as mulheres se destacarem nesse gênero ou simplesmente estamos vivendo um momento em que as autoras finalmente estão recebendo o reconhecimento que sempre mereceram?

Maia - Temos mais mulheres escrevendo hoje, acho que é uma questão de volume. E a América Latina vem se consolidando muito bem nos últimos 10, 12 anos nessa literatura que flerta com o terror. E é um terror muito particular, né? Não é aquele terror Stephen King, norte-americano mais clássico. O terror latino-americano fala sobre ditadura, questões políticas, feminismo, morte, violência, patriarcado. Temos terror político, terror biológico, pós-terror, pré-terror, tudo que é terror.

E eu acho que o melhor lugar hoje para se falar sobre a sociedade é o gênero terror. É o lugar que consegue captar melhor tudo que a gente a gente vive nessa sociedade maluca, violenta, estranha.