Estamos perto de entender o que os animais querem dizer para nós?

Cão mestiço de poodle e cocker spaniel em chão de madeira, com as patas da frente sobre um laptop aberto, com uma janela e uma planta ao fundo.

Crédito, Oscar Wong via Getty Images

Legenda da foto, Ferramentas de inteligência artificial estão ajudando a compreender a língua dos animais
Tempo de leitura: 6 min

Em 2025, ocorreu o primeiro Desafio Coller Dolittle, oferecendo recompensas para pesquisas científicas sobre como se comunicar com os animais.

Uma equipe americana ganhou o prêmio, ao descobrir que certos assobios emitidos pelos golfinhos podem ter função similar às palavras humanas.

Conversar com os animais costumava ser tema de livros e filmes. Mas será que ainda é apenas um sonho ou pode se tornar realidade em breve? E como a inteligência artificial (IA) pode nos ajudar?

Novos sons

A tecnologia já ampliou nossa compreensão da comunicação animal.

Microfones especiais podem nos ajudar a detectar ruídos inaudíveis para o ouvido humano, como os sons ultrassônicos emitidos pelos morcegos.

O ouvido humano pode escutar até cerca de 20 kHz, mas alguns morcegos podem fazer sons "de até 212 kHz", afirma a professora de Ecologia e Biodiversidade Kate Jones, do University College de Londres.

"Eles usam o som como qualquer mamífero faria, para dizer aos demais que estão preocupados ou assustados, ou como chamado de acasalamento", explicou ela ao programa de rádio The Documentary, do Serviço Mundial da BBC.

Como seres humanos, estamos acostumados a permanecer na bolha que os nossos sentidos podem perceber. Mas a nova tecnologia pode expandir este entendimento.

"Ela muda a forma de pensar na natureza e na percepção, pois sei que há muito mais além disso", afirma Jones.

Morcego marrom voando contra o céu azul, com arbustos verdes visíveis ao fundo.

Crédito, Henrik Karlsson via Getty Images

Legenda da foto, A tecnologia nos permite registrar sons dos animais inaudíveis para os ouvidos humanos
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A tecnologia também detecta sons muito baixos para a audição humana, com os emitidos por elefantes.

Em meados dos anos 1980, a bióloga Katy Payne visitou um zoológico em Portland, nos Estados Unidos, e presenciou uma sensação estranha quando estava perto dos elefantes.

"Observei todo tipo maravilhoso de comportamento social e, aos poucos, percebi que também estava sentindo algo um tanto estranho, algo pulsante no ar", contou ela à BBC em 2013.

Utilizando equipamento de gravação, ela percebeu que os elefantes produziam ruídos na faixa do infrassom. A descoberta foi revolucionária para a compreensão da comunicação entre os elefantes.

Payne foi uma das fundadoras do Projeto Ouvindo os Elefantes, que documenta a vida de elefantes selvagens na África por meio dos seus sons.

Os cientistas continuam até hoje a usar seu banco de dados, preservado na Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Agora, eles combinam as informações com o poder da IA.

Processamento em tempo real

O pesquisador Alastair Pickering trabalha com o University College de Londres. Ele usa o banco de dados de sons de elefantes catalogados por idade, sexo, comportamento e até estado emocional para treinar um algoritmo de IA.

"Nós executamos o áudio e dizemos: 'Nesta parte da imagem, existe um elefante macho com problemas'", explica ele. "E a IA aprende a associar os padrões das imagens àquelas marcas específicas."

Um aparelho de gravação tradicional pode ficar no campo por meses até que o áudio seja processado. Mas a IA permite o desenvolvimento de ferramentas para analisar as vocalizações dos elefantes em tempo real, segundo Pickering.

Isso pode nos ajudar, por exemplo, a prever as incidências cada vez maiores de elefantes entrando em aldeias e cidades, destruindo plantações.

"Ela ainda não faz isso, mas [um dia] poderá identificar padrões vocais que sinalizam estresse ou grandes estímulos emocionais, que poderemos interpretar como precursores de uma invasão de elefantes", sugere ele.

Elefante adulto e bebê elefante lado a lado em uma savana.

Crédito, Vicki Jauron, Babylon e Beyond Photography via Getty Images

Legenda da foto, Aprender sobre a comunicação dos elefantes pode ajudar a prever as próximas ações dos animais

Mas as ferramentas de IA não são perfeitas e podem necessitar de colaboração humana para produzir dados precisos.

"Se você tiver instalado um desses aparelhos de gravação acústicos, ele irá gravar tudo — os tucanos ao fundo, as gotas de chuva", explica Pickering.

A ferramenta pode não saber quais sons são importantes. Se o mesmo tucano vocalizar sempre, junto com os elefantes, ela poderá associar inadvertidamente o som do tucano ao som do elefante.

"Por isso, você precisa tentar ajudar a rede a chegar ao resultado certo", ele conta.

Tradutor de animais

Além de tentar nos ajudar a entender e prever o comportamento dos elefantes, Jones afirma que a IA poderá ser utilizada para identificar espécies de morcegos a partir dos seus chamados.

"Você treina a máquina, a IA, a identificar a diferença", explica ela.

"É como treinar [o software] Siri a reconhecer a sua voz. Assim treinamos esses algoritmos a reconhecer espécies de morcegos."

A IA também está se mostrando promissora para decodificar baleias cachalotes, que se comunicam com cliques.

David Gruber é professor de Biologia da Universidade da Cidade de Nova York, nos Estados Unidos. Ele também é fundador da Iniciativa de Tradução dos Cetáceos (Ceti, na sigla em inglês).

Observando os padrões e a estrutura dos cliques e empregando ferramentas de IA similares a software de tradução utilizado para linguagem humana, ele conseguiu prever, com algum sucesso, o próximo clique a ser feito pelas baleias cachalotes.

Foto de uma baleia cachalote nadando perto da superfície da água.

Crédito, by wildestanimal via Getty Images

Legenda da foto, As baleias cachalotes se comunicam com séries de cliques, que os pesquisadores analisam com IA

"Existem muitas novas tecnologias que estamos começando a usar", explica ele.

"Acho que estamos em uma época realmente fascinante, aprendendo cada vez mais elementos do seu sistema de comunicação."

Seu principal objetivo é construir um tradutor que possa decodificar qualquer sistema de comunicação.

"Haverá necessidade de novas ferramentas e novas formas de observar isso e eles poderão ser aplicados em todas as espécies e também se viermos a encontrar vida em outra galáxia", afirma Gruber.

Aprender 'golfinhês'

Mas a possibilidade de que essas ferramentas venham a nos ajudar a estabelecer comunicação de duas vias com os animais já é outra questão.

Quando o assunto é o projeto Ceti, Gruber afirma que o objetivo não é falar com as cachalotes, mas sim ouvi-las.

"De certa forma, já estamos falando com as baleias com os sons dos nossos barcos", segundo ele.

"Estamos fazendo muito barulho... nosso objetivo é traduzir as vozes delas, da forma mais anônima possível."

Foto de um golfinho nadando na água rasa, com ervas marinhas abaixo dele e a luz do sol atravessando a superfície da água.

Crédito, George Karbus Photography via Getty Images

Legenda da foto, Pesquisas indicam que os assobios dos golfinhos podem funcionar como linguagem, mas isso não significa necessariamente que, algum dia, poderemos conversar com eles

O pesquisador de golfinhos Vincent Janik, da Universidade de St. Andrews, no Reino Unido, fez parte da equipe que venceu o primeiro Desafio Coller Dolittle. Ele alerta contra a tecnologia que promete comunicação com os animais.

Ele nos desafia a pensar no que diríamos aos animais se pudéssemos realmente falar com eles.

"Você quer perguntar qual é a cor favorita deles?", questiona ele. "Você verá que irá chegar com muita rapidez a esta questão sobre o que se passa na mente deles e como eles representam seu ambiente."

Ele destaca que não devemos pensar em aprender "golfinhês" da mesma forma que tentamos aprender um idioma estrangeiro.

"Os animais não têm a nossa composição sensorial, não têm a nossa biologia. Por isso, qualquer tipo de comunicação que eles tiverem será diferente."