Por que a 'teoria da guerra justa' está no centro de impasse entre Trump e o papa

Crédito, Reuters
- Author, Alessandra Corrêa
- Role, De Washington para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 7 min
Em meio às recentes críticas públicas do presidente Donald Trump e de outras autoridades americanas ao papa Leão 14, um aspecto tem chamado a atenção: as menções sobre a chamada "teoria da guerra justa", o ensinamento da Igreja que define as condições morais e os limites para o uso legítimo da força.
Depois que Leão 14 — o primeiro americano a comandar a Igreja Católica — condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, alguns políticos do Partido Republicano responderam não apenas defendendo sua posição sobre a guerra, mas questionando o papa em termos teológicos.
O católico mais proeminente do governo, o vice-presidente JD Vance, que se converteu ao Catolicismo somente em 2019, chegou a dizer que o papa deveria ser "cuidadoso" ao falar sobre teologia e que, se for "opinar" sobre o tema, seus comentários deveriam estar "ancorados na verdade".
"Da mesma forma que é importante que o vice-presidente dos Estados Unidos seja cuidadoso ao falar sobre questões de políticas públicas, creio que é muito, muito importante que o papa seja cuidadoso ao falar sobre questões de teologia", disse Vance em um evento na terça-feira (14/4).
Entre as declarações do papa que provocaram reação de alguns republicanos está uma frase proferida durante sua homilia de Domingo de Ramos, de que Deus "rejeita as orações de quem faz a guerra".
Ao comentar a fala do pontífice, o presidente da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados), o republicano Mike Johnson, que não é católico, e sim evangélico, destacou: "Existe algo chamado doutrina da guerra justa".
Diante do debate religioso desencadeado por manifestações como essas, a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB na sigla em inglês) divulgou na quarta-feira (15/4) um raro esclarecimento sobre a teoria da guerra justa.
O esclarecimento é assinado pelo bispo James Massa, presidente da Comissão de Doutrina da organização, e foi publicado "à luz de comentários públicos recentes a respeito dos ensinamentos da Igreja Católica sobre a guerra e a paz".
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"Por mais de mil anos, a Igreja Católica tem ensinado a teoria da guerra justa, e é a essa longa tradição que o Santo Padre faz referência cuidadosa em seus comentários sobre a guerra", disse o bispo.
Um princípio constante dessa tradição milenar é que uma nação só pode legitimamente empunhar a espada "em legítima defesa, uma vez esgotados todos os meios de negociação pacífica", esclareceu Massa.
"Para ser uma guerra justa, deve ser uma defesa contra outro que ativamente trave a guerra, que foi exatamente o que o Santo Padre afirmou: 'Ele não ouve as orações daqueles que fazem a guerra'", observou o bispo.
"Quando o papa Leão 14 fala como pastor supremo da Igreja universal, ele não está meramente oferecendo opiniões teológicas, ele está pregando o Evangelho e exercendo seu ministério como Vigário de Cristo", ressaltou Massa.
"O ensinamento constante da Igreja insiste que todas as pessoas de boa vontade devem rezar e trabalhar por uma paz duradoura, evitando os males e as injustiças que acompanham todas as guerras", conclui o bispo.
'Interpretação equivocada'

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O pesquisador de estudos católicos Michael Sean Winters, colunista do jornal National Catholic Reporter, salienta que nunca viu um esclarecimento desse tipo por parte da Conferência dos Bispos.
"Houve declarações no passado, criticando certas políticas, ou sobre temas como o apoio de democratas ao aborto, mas eram assinadas por um porta-voz. Esta é a primeira vez que vejo [um esclarecimento do tipo] assinado pelo presidente da Comissão de Doutrina", diz Winters à BBC News Brasil.
O esclarecimento não citou o nome de nenhum político, mas, segundo Winters, ficou claro que foi direcionado a Vance.
A teologia da guerra justa define os parâmetros éticos dentro dos quais a Igreja acredita que um conflito deva ser travado, tanto em relação a quando iniciar o confronto quanto aos critérios de conduta durante a participação em uma guerra.
Na tradição católica, esse conceito foi articulado por Santo Agostinho e, posteriormente, desenvolvido por Tomás de Aquino.
Para Winters, uma "interpretação equivocada" da teoria da guerra justa está no cerne do impasse entre Washington e o papa.
"Pessoas que não conhecem a teologia real de Santo Agostinho e Tomás de Aquino acham que significa apenas [perguntar se] 'é uma causa justa?'", afirma o pesquisador.
"Esse é um dos requisitos, mas não o único", destaca. "Algumas pessoas não entendem que a teoria da guerra justa existe para tornar mais difícil fazer a guerra, não para tornar mais fácil."
"[Também] é preciso ter sido atacado, acreditar que se terá sucesso. O mal que a guerra acarreta tem de ser menor do que o mal que se está tentando erradicar", enumera Winters.
"Fundamentalmente, é preciso ter uma intenção muito clara. E este governo não tem sido nada claro quanto à intenção (da guerra no Irã)", observa.
Winters lembra que Santo Agostinho foi "o primeiro que, de certa forma, formulou a teoria da guerra justa" na Igreja. Leão 14 é o primeiro papa agostiniano (pertencente à Ordem de Santo Agostinho) a comandar a Igreja Católica.
"Santo Agostinho era muito sofisticado. Ele entendia que todo mundo acha que é o mocinho, mas isso não ajuda a evitar a guerra", diz Winters.
Segundo o pesquisador, um dos pontos importantes é o de que "a guerra se destina apenas a restaurar a paz, a segurança e a justiça".
"Portanto, a guerra é uma resposta a uma injustiça, a um ataque ou à falta de segurança. Você pode se defender, mas não pode iniciar uma guerra apenas porque quer dominar outro país", detalha. "E acho que é isso que algumas pessoas não entendem."
Limites e troca de farpas

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Winters destaca que, no passado, papas como Júlio 2º (1503-1513) chegaram a liderar guerras.
No entanto, é cada vez mais difícil que a Igreja Católica considere que um conflito se enquadre na sua definição de "guerra justa", e os últimos papas têm se posicionado contra as guerras.
"Na era moderna, não consigo lembrar de nenhuma declaração formal de que determinada guerra fosse uma 'guerra justa', nem de qualquer tentativa de abençoar uma guerra", salienta.
De acordo com o pesquisador, a ideia de que os requisitos da teoria da guerra justa são impossíveis de cumprir ganhou força especialmente depois da Segunda Guerra Mundial e em meio à corrida armamentista nuclear.
"O papa Francisco (antecessor de Leão 14) afirmou algumas vezes que via limites reais na teoria da guerra justa e sugeriu que, talvez, devêssemos priorizar a não violência", lembra Winters.
Francisco, que comandou a Igreja de 2013 até sua morte, em 2025, foi alvo constante de uma ala de católicos conservadores nos Estados Unidos, incluindo padres, bispos e um sistema de mídia influente, que condenavam suas posições consideradas progressistas.
Nos últimos dias, diante dos ataques de Trump e outros líderes em Washington ao primeiro papa americano, alguns desses críticos contumazes saíram em defesa de Leão 14.
Um exemplo é o bispo Joseph Strickland, antigo crítico do papa Francisco e apoiador de Trump.
Diante da tensão entre Washington e o Vaticano, Strickland declarou: "Não acredito que este conflito atenda aos critérios de uma guerra justa. Estou com o papa e seu apelo pela paz. Não se trata de política. Trata-se de verdade moral".
O bispo acrescentou que a escala de mortes e sofrimento enfrentados por civis inocentes impede que a guerra seja considerada "justa".
O atual debate sobre a teoria da guerra justa e os pronunciamentos de políticos republicanos questionando Leão 14 em termos teológicos ocorrem em meio a uma troca de farpas entre Trump e o pontífice.
No domingo passado (12/4), o presidente americano postou uma série de ataques em sua rede social, Truth Social, descrevendo Leão 14 como "fraco contra o crime" e "terrível para a política externa".
"Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", disse Trump, sugerindo que foi graças a ele que o papa foi eleito.
O pontífice respondeu aos ataques declarando que não tem "medo do governo Trump". Nesta semana, o papa criticou "aqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para seu próprio ganho militar, econômico e político."
Em um discurso em Camarões na quinta-feira (16/4), o papa criticou os líderes que gastam bilhões em guerras, afirmando que o mundo está "sendo assolado por um grupo de tiranos".
Mas neste sábado (18/4), o pontífice afirmou que as declarações foram escritas duas semanas antes – "bem antes do presidente sequer comentar sobre mim".
"E, no entanto, como se vê, foi interpretado como se eu estivesse tentando debater, novamente, com o presidente, o que não me interessa de forma alguma", disse ele a jornalistas a bordo de um voo para Angola.
De acordo com Winters, a postura de Trump nesse episódio foi tão "desrespeitosa" que teve o impacto de unir os católicos dos Estados Unidos (em defesa do papa).
"Isso uniu os católicos mais do que qualquer outra coisa nos últimos 10 anos", afirma Winters. "(Há entre os católicos americanos a ideia de que) não se mexe com o nosso papa."



























