Último pilar do liberalismo ocidental? Os desafios da alemã Angela Merkel

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Legenda da foto, Merkel anunciou no domingo que tentará um quarto mandato como chanceler da Alemanha
    • Author, Ángel Bermúdez (@angelbermudez)
    • Role, BBC Mundo

"A noite em que o Ocidente morreu."

Esse foi o título capa do diário berlinense B.Z. depois da vitória de Donald Trump na eleição presidencial dos EUA, no último dia 8 de novembro.

A declaração refletia a leitura de que algumas partes da Europa concordam com as ideias expressas por Trump durante sua campanha - ele questionou a relevância da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criticou o livre comércio, negou as alterações climáticas e prometeu erguer um muro no país e endurecer as leis para conter o fluxo de imigrantes.

Dias depois, o jornal americano The New York Times publicou uma análise intitulada "Com a saída de Obama do cenário mundial, Angela Merkel pode ser a última defensora da ordem liberal do Ocidente". Nela, destacou a crise que aflige a ordem democrática fixada entre os Estados Unidos e aliados europeus desde o término da 2ª Guerra Mundial.

No domingo, Merkel anunciou sua intenção de concorrer a um quarto mandato como chanceler da Alemanha e, ao fazê-lo, rejeitou a ideia de que corresponderia a ela o papel solitário de manter o liberalismo ocidental vivo.

"Isso é grotesco, algo absurdo", disse ela a repórteres.

Mas muitos analistas veem a revisão da situação de várias potências ocidentais como um espelho das rachaduras e dificuldades enfrentadas em todos esses lugares.

Uma ordem em crise

No Reino Unido, a vitória do Brexit com uma campanha baseada na rejeição à imigração e à União Europeia coloca o governo de Theresa May em uma posição difícil para liderar a defesa das ideias de abertura e integração - próprias da ordem liberal.

Na França, a opção em ascensão é a ultradireitista Frente Nacional, cuja líder Marine Le Pen celebrou o Brexit como uma conquista pessoal e anunciou que, sob sua liderança, seu país também deixaria a União Europeia.

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Legenda da foto, François Hollande tem sido um forte aliado de Merkel na União Europeia

Com o alto nível de desaprovação da gestão do presidente socialista François Hollande, um aliado natural de Merkel na integração europeia, não se pode excluir a possibilidade de uma vitória de Le Pen nas eleições presidenciais de 2017.

Analistas franceses já assumem que ela vai conseguir passar para o segundo turno, mas ainda têm dúvidas se conseguirá vencer as eleições.

Na Itália e na Espanha, a fraqueza dos governos do social-democrata Matteo Renzi e do direitista Mariano Rajoy reduzem sua margem de manobra e capacidade de projetar a defesa dos valores ocidentais.

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Legenda da foto, O líder ultranacionalista holandês Geert Wilders tem chances de chegar ao poder

A Áustria, por sua vez, enfrenta a possibilidade de eleger no próximo mês o seu primeiro presidente de extrema-direita, enquanto as eleições parlamentares de março na Holanda poderão levar ao poder o ultranacionalista Geert Wilders, que prega contra o Islã e também defende a saída da UE.

Na Hungria e na Polônia, a direita populista e "eurocética" já está no poder.

O fator Putin

Se durante a campanha Donald Trump deixou em dúvida o seu apoio a muitas das ideias de ordem liberal ocidental, sua aparente simpatia pelo presidente russo, Vladimir Putin, não melhora as coisas.

Especialmente em um momento em que a Rússia está se mostrando cada vez mais assertiva em seu confronto com as potências ocidentais em questões como a situação na Ucrânia ou a guerra na Síria.

De fato, Merkel tem desempenhado um papel-chave em manter os Estados da União Europeia unidos em torno das sanções à Rússia ante sua anexação da Crimeia e o apoio dado por Moscou aos separatistas no leste da Ucrânia.

Com Trump na Casa Branca, não está claro se essas sanções poderão ser mantidas.

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Legenda da foto, A Rússia de Putin tem sido alvo de sanções por parte das potências ocidentais

"Os desafios que as democracias ocidentais enfrentam em 2016 se aproximam um fim precário, com uma amplitude e intensidade não vistas desde o início da década de 1980, quando a União Soviética de Leonid Brezhnev foi expandindo seu arsenal nuclear e reprimindo o movimento Solidariedade na Polônia ", disse um editorial publicado no fim de semana pelo jornal britânico The Observer.

"A vitória de Trump e os riscos de governos de direita na Holanda e na França fazem de Angela Merkel fez uma figura fundamental para a sobrevivência dos valores democráticos", apontou a publicação.

Problemas em casa

Mas Merkel enfrenta seus próprios desafios internos.

Apesar de sua popularidade permanecer acima de 50%, a sua decisão de abrir as portas do país para as pessoas que fogem da guerra na Síria e a consequente chegada de um milhão de refugiados ao país em 2015 enfraqueceu a sua imagem interna e deu asas a movimentos nacionalistas e xenófobos.

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Legenda da foto, A chegada de milhares de refugiados à Alemanha causou danos à imagem de Merkel

O partido alemão de extrema-direita conseguiu numerosas vitórias eleitorais que lhe permitiram ter uma presença em 10 dos 16 legislativos regionais e parece pronto para alcançar presença no Bundestag, o Parlamento federal, durante as eleições do próximo ano.

"Uma pessoa sozinha não pode resolver tudo. Só juntos somos fortes. Assim, eu quero cumprir o que é meu dever como chanceler", disse Merkel na sexta-feira passada, durante uma coletiva de imprensa que dividiu com o espanhol Mariano Rajoy.

No entanto, as expectativas que são colocadas sobre ela vão muito além.

Como resumido pelo The Observer: "Sem a presença de Obama para defender a ordem democrática liberal, Merkel poderia ser a última mulher de pé".