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Trump diz que está considerando anexar ilha iraniana, mas um acordo poderia ser fechado 'rapidamente'
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou no domingo (29/03) que avalia a possibilidade de "tomar o petróleo do Irã" e tomar a ilha iraniana de Kharg, o principal centro de distribuição de combustíveis do país.
"Para ser honesto, minha ideia favorita é tomar o petróleo do Irã, mas algumas pessoas estúpidas nos EUA dizem: 'Por que você está fazendo isso?' Mas são pessoas estúpidas", disse Trump em entrevista ao jornal Financial Times.
"Talvez tomemos a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções", afirmou ainda. "Isso também significaria que teríamos que ficar lá [na ilha de Kharg] por um tempo."
Os comentário de Trump seguem a chegada de cerca de 3,5 mil militares à região a bordo do navio de guerra USS Tripoli.
O presidente americano acrescentou durante a entrevista ao jornal britânico que as negociações indiretas entre os EUA e o Irã, por meio de "emissários" paquistaneses, estavam progredindo bem, mas se recusou a comentar se um acordo de cessar-fogo poderia ser alcançado em breve.
Um reportagem do jornal The Wall Street Journal apontou ainda que Trump estaria considerando extrair mais de 400 quilos de urânio do Irã.
A operação "provavelmente colocaria forças americanas dentro do país por dias ou mais", segundo a reportagem, que cita fontes de segurança não identificadas.
A BBC procurou a Casa Branca e o Pentágono para mais esclarecimentos, mas não obteve resposta.
Mais cedo no domingo (29), o presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que as forças de seu país estavam "aguardando a entrada de soldados americanos em território iraniano para poderem bombardeá-los".
No território iraniano, os ataques continuaram durante o final de semana.
As Forças de Defesa de Israel (IDF) dizem ter atingindo "alvos do regime terrorista iraniano em toda Teerã" no domingo. Fortes explosões foram ouvidas na capital iraniana durante o dia, e cortes de energia foram relatados após ataques à "infraestrutura elétrica" em partes da cidade.
A mídia iraniana relata que ataques à infraestrutura elétrica atingiram áreas da capital, da província de Teerã e da província de Alborz.
Mostafa Rajabi Mashhadi, vice-ministro da Energia, disse na TV estatal que "estilhaços atingiram um dos postes de transmissão de eletricidade na entrada da cidade de Karaj". Karaj fica a noroeste de Teerã, na província de Alborz.
A agência semioficial iraniana Fars News Agency, afiliada ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), informou no final da tarde de domingo que a eletricidade foi restabelecida na maior parte das cidades.
Ainda segundo a Fars, uma universidade em Isfahan, no centro do Irã, diz que foi atingida por ataques dos EUA e de Israel pela segunda vez neste fim de semana.
O Irã ameaçou atacar universidades americanas e israelenses na região em resposta, descrevendo-as como "alvos legítimos".
Nos países do Golfo, grandes infraestruturas foram alvejadas por ataques iranianos. Os Emirados Árabes Unidos registraram o maior número de bombardeios em semanas no sábado (28/03) e a Emirates Global Aluminium, uma das maiores produtoras mundiais desse metal, afirma que sua principal fábrica em Abu Dhabi sofreu "danos significativos".
Imagens verificadas pela BBC Verify, serviço de verificação de dados e imagens da BBC, mostram que uma aeronave militar dos Estados Unidos foi destruída na Base Aérea Príncipe Sultan, a cerca de 100 km a sudeste da capital da Arábia Saudita, Riad. Os elementos visíveis nas imagens, como postes, unidades de armazenamento e marcações no pavimento, coincidem com imagens de satélite.
As imagens parecem ter sido publicadas inicialmente por uma página no Facebook dedicada a notícias militares dos EUA. Elas mostram que a aeronave E-3 Sentry parece ter sido partida ao meio.
No domingo, a agência de notícias Fars, ligada à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), havia afirmado que um drone Shahed atingiu uma aeronave de comando e controle dos Estados Unidos nessa base aérea na Arábia Saudita.
Na sexta-feira (27/3), um funcionário dos EUA havia dito à agência de notícias Reuters que 12 militares americanos ficaram feridos, dois deles em estado grave, em um ataque militar iraniano a essa base. O jornal Wall Street Journal informou que ao menos duas aeronaves de reabastecimento também foram danificadas.
O Comando Central dos EUA ainda não comentou publicamente o incidente. A BBC pediu um posicionamento.
Segundo informações públicas do governo americano, a aeronave E-3 Sentry tinha um custo estimado de US$ 270 milhões em 1998 (cerca de US$ 545 milhões, ou R$ 2,8 bilhões em valores corrigidos pela inflação).
Também no sábado, os houthis do Iêmen, aliados do Irã, reivindicaram seu primeiro ataque contra Israel desde o início do atual conflito no Oriente Médio.
'Inimigo planeja ataque terrestre em segredo'
Veículos de comunicação iranianos, incluindo a agência de notícias oficial Irna, divulgaram no domingo uma mensagem do presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, marcando os 30 dias do início da guerra.
Em seu pronunciamento, Ghalibaf teria dito que ao mesmo tempo em que "sinaliza negociação publicamente", o governo dos EUA planeja um ataque terrestre "em segredo".
Ainda segundo o parlamentar, as forças iranianas estão "esperando que os soldados americanos entrem em solo iraniano para poderem bombardeá-los".
Sobre a possibilidade de uma rendição do Irã, Ghalibaf disse que a mensagem do Irã é "clara" e que não aceitará "humilhação".
Segundo relatos não confirmados, o presidente do Parlamento é considerado pelo governo de Donald Trump como um potencial parceiro e possivelmente até mesmo um futuro líder.
Ghalibaf tem formação militar e ocupa a liderança da Legislativo do Irã desde maio de 2020.
As declarações do parlamentar seguem uma reportagem do jornal americano The Washington Post que afirma que o Pentágono está se preparando para semanas de operações terrestres no Irã.
Mas segundo o jornal, ainda não está claro se o presidente americano Donald Trump aprovará, de fato, qualquer ação.
Em comunicado separado, o Comando Central dos EUA informou no sábado que o navio de guerra USS Tripoli chegou à região.
Em uma publicação nas redes sociais, as forças americanas afirmaram que o navio transporta uma unidade de cerca de 3,5 mil marinheiros e fuzileiros navais, além de aeronaves de transporte e caças de ataque.
Na sexta-feira (27/03), o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou na que os EUA poderiam atingir seus objetivos no Irã "sem o envio de tropas terrestres".
Ele explicou que os recentes destacamentos visavam dar opções a Trump, dizendo: "Estaremos sempre preparados para dar ao presidente a máxima oportunidade de se adaptar a contingências".
No início do mês, Trump disse a repórteres que não pretendia colocar tropas "em lugar nenhum". Mas acrescentou rapidamente: "Se fosse colocar, certamente não diria a vocês".
Ataques houthis contra Israel
O sábado também foi marcado pelo primeiro ataque dos houthis do Iêmen contra desde o início do atual conflito no Oriente Médio.
O grupo afirma ter disparado uma série de mísseis balísticos contra "alvos militares israelenses sensíveis" em resposta aos ataques contra o Irã, o Líbano, o Iraque e os territórios palestinos.
Os houthis disseram ainda que suas operações continuarão até o fim da "agressão" em todas as frentes.
Os rebeldes afirmaram, na tarde de sábado, ter realizado um segundo ataque em partes do sul de Israel.
Yahya Saree, porta-voz das Forças Armadas do Iêmen, a facção houthi das forças militares do país, disse que o grupo lançou "uma barragem de mísseis de cruzeiro e drones" contra "vários locais militares vitais" pertencentes a Israel.
Ele acrescentou que os ataques "coincidiram" com as respectivas operações militares do Irã e do Hezbollah e que a ação "alcançou com sucesso seus objetivos", acrescentando que haverá novos ataques nos próximos dias "até que o inimigo criminoso cesse seus ataques e agressões".
Mais cedo no sábado, as Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram ter interceptado um míssil lançado do Iêmen.
O governo do Iêmen reconhecido internacionalmente condenou as "tentativas frequentes" do Irã de "arrastar o Iêmen" e outros países do Oriente Médio para o conflito "por meio de suas milícias terroristas".
O país está mergulhado em uma guerra civil que se intensificou em 2015, quando o grupo rebelde houthi, apoiado pelo Irã, tomou o controle do noroeste do país do governo reconhecido internacionalmente, levando à intervenção de uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e apoiada pelos Estados Unidos.
O envolvimento direto dos houthis no conflito amplia os temores de uma expansão da guerra, segundo especialistas.
Para Jo Floto, chefe do escritório da BBC News no Oriente Médio, em Jerusalém, a intervenção abre uma nova frente do conflito na península Arábica.
E segundo o pesquisador Farea Al-Muslimi, do centro de estudos britânico Chatham House, o novo desdobramento é de "enorme importância" diante da influência que os houthis mantém no Mar Vermelho.
O grupo já ameaçou bloquear e atacar o estreito de Bab el-Mandeb, situado entre o Iêmen, Djibuti e Eritreia. O estreito controla o tráfego marítimo em direção ao Canal de Suez e transporta cerca de 12% do petróleo comercializado por via marítima no mundo.
No último mês, a rota ganhou ainda mais importância ao se tornar uma alternativa para o escoamento de petróleo do Oriente Médio, diante do fechamento do Estreito de Ormuz.
Em outros momentos, como durante a guerra em Gaza, o estreito de Bab el-Mandeb já foi alvo dos houthis, que bloquearam a rota atacando navios, usando drones e mísseis.
Ao ser questionado sobre o quão disruptivo seria outro bloqueio efetivo do estreito, Al-Muslimi afirmou que seria "um pesadelo".
"Já temos um pesadelo, e isso só o tornaria ainda pior", disse o especialista.
Ataques no Golfo e em Teerã
No domingo, as Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram ter concluído mais uma onda de ataques contra Teerã, visando centros de comando temporários e instalações de produção de armas.
Segundo as IDF, o regime iraniano havia transferido alguns centros de comando para unidades móveis após ataques anteriores. Várias dessas unidades já foram desmanteladas, segundo Israel.
Em comunicado, as forças israelenses acrescentam ainda que comandantes que operavam nos quartéis-generais iranianos foram alvejados.
Ao mesmo tempo, os países do Golfo enfrentaram repetidos ataques nas últimas 24 horas.
Além do ataque contra a a Emirates Global Aluminium, também foi atingida em um ataque iraniano a Aluminium Bahrain, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo.
No Kuwait, o sistema de radar do aeroporto internacional sofreu extensos danos.
A Arábia Saudita afirmou também ter interceptado e destruído 10 drones nas últimas horas, segundo o Ministério da Defesa do país.
Com suas economias e modo de vida em risco, os países do Golfo insistem que devem ter voz em quaisquer futuras negociações de paz, aponta Azadeh Moshiri, correspondente para o Sul da Ásia da BBC News, reportando de Dubai.
Eles estão, no entanto, divididos quanto ao caminho a seguir – e sobre como deve ser o relacionamento da região com o Irã ou os Estados Unidos.
Funeral de jornalistas mortos no Líbano
No Líbano, parentes e amigos se despediram dos três jornalistas mortos por um ataque israelense no sábado.
Imagens mostram os caixões de Ali Shoeib, Fátima Fetoni e seu irmão, Mohamed Fetoni, sendo carregados.
Os Fetonis trabalhavam para a Al Mayadeen, um canal de televisão com sede em Beirute. Shoeib era repórter do canal Al Manar, afiliado ao Hezbollah.
Ao confirmar a morte de Shoeib em uma publicação no Telegram, as IDF o acusaram de ser um operativo do Hezbollah "disfarçado de jornalista".
Em resposta ao ataque, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), uma importante organização que promove a liberdade de imprensa, declarou: "Jornalistas não são alvos legítimos, independentemente do veículo para o qual trabalham".
Sara Qudah, diretora regional do CPJ, afirma que existe um "padrão preocupante", tanto "nesta guerra quanto nas décadas anteriores", de "Israel acusar jornalistas de serem combatentes ativos e terroristas sem apresentar provas críveis".
Durante o conflito em Gaza, Israel negou repetidamente ter atacado civis deliberadamente.
'Deus não ouve orações de quem faz guerra', diz papa
Também neste domingo, o papa Leão 14 discursou para pessoas no Vaticano que celebram o Domingo de Ramos.
O papa disse que Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras e têm "mãos cheias de sangue", no que foi interpretado como uma crítica aos envolvidos na guerra de EUA e Israel contra o Irã.
"Este é o nosso Deus: Jesus, rei da paz, que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra", diz o papa.
"Ele não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita."
Citando uma passagem da Bíblia, ele afirmou: "Mesmo que façam muitas orações, não as ouvirei: suas mãos estão cheias de sangue."
Nesta segunda-feira (30/03), a polícia israelense anunciou que chegou a um acordo com o Patriarcado Latino de Jerusalém — a chefia da Igreja Católica em Israel — que permitirá a grupos limitados de cristãos rezar na Igreja do Santo Sepulcro com parte das celebrações da Semana Santa.
A polícia israelense tinha sido criticada depois que o patriarca latino, cardeal Pierbattista Pizzaballa, foi detido do lado de fora da Igreja do Santo Sepulcro, onde planejava celebrar uma missa de Domingo de Ramos.
O embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee, disse que foi um "excesso infeliz" que é "difícil de entender ou justificar", enquanto a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, chamou a decisão de "uma ofensa não apenas contra os fiéis, mas contra toda comunidade que reconhece a liberdade religiosa".
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse que fiéis de "todas as religiões" foram orientados a não visitar locais na Cidade Velha de Jerusalém por razões de segurança após recentes ataques iranianos. Após as críticas, ele voltou atrás e disse que o patriarca passaria a ter "acesso total" à igreja.