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Atualizado às: 18 de julho, 2005 - 09h49 GMT (06h49 Brasília)
 
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Gosto de infância
 
Ivan Lessa
Em relação ao passado, o paladar não mente. Ele está sempre pondo um biscoitinho em nosso chá, como com Proust, nos transportando aos mais diversos lugares e companhias.

Pensando bem, talvez minta adoidado. Passa-nos trotes e rasteiras em nossas papilas gustativas o tempo – o tempo! – todo.

Com meu paladar aprendi umas poucas coisas. Que jiló ou quiabo são coisa do Demo, que jaca na casa é rumo de rua. No entanto, boto a mão – ou língua – no fogo por tudo que tenha a ver com o que me fez festas na boca ou nos olhos durante a infância.

Nunca fui de pronunciado apetite infantil, ao contrário de grande parte desse povo britânico que me cerca, com suas barras e mais barras de chocolate, suas batatinhas fritas, suas balas e tortas de ruibarbo (ruibarbo, meu Deus!).

Conto nos dedos livres de manchas de chocolate a parte que me sobrou do chamado sabor de infância, assim mesmo, como se fosse a versão de um bolero de Lucho Gatica. Em geral, ardo por refrigerantes.

Adoro um leite com sabor de morango que vendem numa cadeia de, chamemo-las assim, mercearias que há por aqui.

E sorvete, sim senhor! Que, por sinal, nada tem de garoto neles. Sorvete é coisa de gente grande e muito discernimento.

Dentre os sorvetes, os de fruta são os mais exigentes, os mais literários. Tivessem dado a Proust uma boa casquinha de sorvete de cupuaçu e vocês veriam a beleza de romanção que o homem teria escrito, em vez daquelas frescuras que atravessam páginas ignorando as regras mínimas da pontuação e organização de parágrafos.

Tudo isso porque fui remetido à minha juventude graças à remessa, feita por amigo dos mais gentis, de vários nacos de geléia d´água.

Geléia d´água era (e é, ao que parece) aquele doce quadradinho que freqüentava baleiro e botequim de “seu” Manuel.

Vinha de tricolor, às vezes, nas cores vermelho e verde, com uma tira branca no meio, e fazia companhia ao famoso bolinho que matou o guarda e os esplêndidos ovos cozidos em tons de rosa e azul, estes mergulhados num frasco de águas turvas como a vida que se viveu.

A “geleiarada” que recebi é feita, segundo afirma orgulhoso o rótulo, com água, açúcar, essência, corante artificial e vem nos sabores, por assim dizer, de morango e abacaxi.

Não têm gosto de nada, claro. Sabem a tudo, evidente.

 
 
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