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Atualizado às: 01 de outubro, 2004 - 12h33 GMT (09h33 Brasília)
 
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Bono e a salvação do mundo
 
Ivan Lessa
Na última semana de setembro, teve lugar e se encerrou a reunião anual do chamado "novo" partido Labour (diga trabalhista), a que se convencionou chamar de convenção.

Debateu-se, discursou-se, protestou-se e o primeiro-ministro Tony Blair, mais uma vez, segundo tudo indica, saiu-se bem e aguarda, talvez pressuroso, eleições gerais quando espera ser eleito para um terceiro mandato, com Iraque ou sem Iraque. Com Iraque, para ser franco.

Como já se tornou hábito, há um dia em que um chefe de Estado ou destacada personalidade pública internacional se dirige aos convencionais e dá seu palpite.

Se foi convidado, evidente que o palpite é sempre parabenizando ou incentivando o partido a continuar seu ótimo, seu excelente, seu incomparável trabalho.

Esse foi o caso em anos anteriores quando os ex-presidentes Bill Clinton e Nelson Mandella discursaram para (essa a única palavra) delírio dos presentes.

Lennon e McCartney

Delírio houve esta semana também. O gringo – perdão, o estrangeiro – a tomar, ou receber a palavra dada, foi o cidadão irlandês Paul David Hewson, de 44 anos, mais conhecido nos meios artísticos como simplesmente Bono, embora de simples não tenha nada.

Bono especializou-se na difícil arte de, embora irlandês de nascimento e criação, conforme já foi notado, cantar com voz e entonação de negro americano cego e velho.

Nada fácil, admitamos, mas modalidade de praxe e rigor nos meios roqueiros internacionais.

Bono também adotou a personalidade que o nome, como Cica, bons produtos indica: ele não só é "o bom" como também é "bom" – suas causas são politicamente irrepreensíveis: da paz no mundo inteiro ao perdão das dívidas externas dos países pobres, com pronunciada ênfase no combate à Aids.

Bono, sempre de óculos escuros, sua marca registrada, discursou perante os trabalhistas e comparou o primeiro-ministro Tony Blair e seu ministro da Fazenda, Gordon Brown (entre os quais, sussurra-se aos berros, haver uma pronunciada inimizade), comparou-os, dizia eu, à dupla John Lennon e Paul McCartney.

Sua exortação – essa a única palavra – terminou açulando o atual e, para ele, futuro governo, a lidar e resolver finalmente esse danado desse problema da pobreza que tanto aborrecimento causa ao mundo.

Lembrei-me, com saudade, das exortações e entrevistas de nosso querido Caetano Veloso.

 
 
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