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Atualizado às: 19 de dezembro, 2003 - 12h09 GMT (10h09 Brasília)
 
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Na toca dos réus
Ivan Lessa

Eu acho que em inglês é Pledge. O produto que se usa para dar lustro em madeira. O equivalente ao nosso Óleo de Peroba. Que as pessoas com cara de pau passam no rosto para ficarem mais à vontade.

Se for Pledge, "dona" Marina Hyde, colunista do The Guardian britânico, usa-o em profusão.

Nesta semana, logo após Saddam Hussein ter sido aprisionado em sua Toca de Destruição em Massa, Marina Hyde ligou para o Pentágono, nos Estados Unidos, identificou-se e foi prontamente atendida pelo cordial assessor de imprensa coronel J. Defrank.

Marina (que me perdoe a intimidade) começou perguntando se não seria ligeiramente embaraçoso se, no decorrer de um julgamento, o ex-tirano desse com a língua nos dentes e passasse a enumerar, para o mundo inteiro ouvir, todos os velhos negócios entre seu país, o Iraque, e os Estados Unidos.

Não dando tempo para o bom coronel responder, Marina foi, ela própria, desfiando: e a visita de Donald Rumsfeld a Bagdá, em 1984, quando Saddam mais usava aquele gás que age sobre o sistema nervoso das pessoas, no caso pessoas iranianas? Quando o hoje secretário de Estado se disse "satisfeito de estar inaugurando pontes" com Saddam?

Ao que parece, o coronel conseguiu encaixar, nesse ponto, uma interjeição de ininteligibilidade na conversa: "Ahn?" E argumentou: “Esse já foi discutido, eu acho".

Marina Hyde, após aplicar mais uma camada de Pledge ou Óleo de Peroba na face (na voz?) por certo formosa, indagou muito séria: "É, mas poderia ser chato. Não seria mais simples se ele sofresse um pequeno acidente em sua cela?"

As aspas em torno da palavra "acidente", eu ouvi simplesmente lendo a transcrição. Marina ainda foi mais longe, a danada. Emitiu um risinho coquete: qui, qui, qui.

Do outro lado da linha, o coronel americano prosseguiu coronel e americano: "Sobre isso eu não posso dar uma opinião oficial que venha a ser citada, que seja on the record".

Marina explicou que, nas prisões inglesas, essas coisas são muito comuns e se ofereceu até mesmo para botar ele em contato com alguém da Federação Policial Britânica. O coronel Defrank encerrou polidamente o papo: "Nós preferimos, no momento, não entrar em especulações".

Minha admiração pelo jornalismo britânico continua imensa.

 
 
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