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Atualizado às: 17 de outubro, 2003 - 14h45 GMT (11h45 Brasília)
 
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Ivan Lessa


O Reino Unido recebeu, oficialmente, as desculpas apresentadas por Ratu Filimoni Wawabalavu, chefe dos Tui Navasutila da ilha de Viti Levu, uma das 330 que constituem o arquipélago de Fiji no oceano Pacífico.

Ao que parece, custou, mas finalmente os bons fijianos reconheceram os erros de seu passado.

As desculpas estendem-se à família do reverendo Thomas Baker e levaram precisamente 136 anos para serem apresentadas, mas, conforme se diz, antes tarde do que nunca.

É triste, mas não há como botar flores no túmulo no reverendo, cujos restos mortais ficaram pela tal ilha fijiana.

Os detalhes da história são tristes, mas instrutivos.

O reverendo Thomas Baker era um missionário, fiel soldado das legiões de Deus, e procurava, por volta do século 19, levar a santa palavra do senhor aos nativos, na época tidos como selvagens e ignorantes.

Das 330 e tantas ilhas que formam o arquipélago, o reverendo foi parar em Viti Levu, uma das poucas habitadas, portanto o motivo único para pregar o evangelho.

Com a doçura que seguramente fazia parte de seu temperamento, o reverendo Baker iniciou seus sermões, embora seja um mistério como ele conseguia se comunicar com o povo local.

Pelo pouco que se sabe do reverendo, era de peso e altura médias, corado pelo sol do Pacífico e algo audaz, uma vez que no dia 21 de julho de 1867 tirou um pente do cabelo do líder do povoado.

O que ele queria com o pente, não se sabe. Nem o porquê de tanta intimidade.

Talvez, boa pessoa que era, estivesse apenas tentando consertar o repartido do cabelo do chefe tribal.

A verdade é que, para os Navasutila, se tratava de, além de violação de tabu, uma grossa irreverência acrescida a audácia. Em consequência, o reverendo foi morto e, logo depois (espera-se), cozinhado e devorado.

Ao que parece, só não comeram as botas do reverendo, o que dá uma idéia da qualidade dos tecidos empregados nas roupas da época e do couro nos sapatos.

O ato de canibalismo não mais se repetiu e uma das botas encontra-se exposta no museu local.

Por que só agora as desculpas? Ao que parece alguns membros do povoado se acreditam vítimas de uma maldição graças às comilanças de seus antepassados.

Em novembro, haverá uma cerimônia oficial em Viti Levu. Por via das dúvidas, o Ministério do Exterior britânico reluta em enviar um representante oficial, mesmo magrinho.

 
 
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