'Antipartido' da Espanha lança candidato que não aparece em público

Crédito, BBC World Service
Na corrida eleitoral ao Parlamento Europeu, há um candidato que, paradoxalmente, restringe ao máximo suas aparições públicas.
Hervé Falciani não tem endereço fixo e evita participar de comícios. Engenheiro de sistemas ítalo-francês, ele vive sob ameaças de morte e é protegido pela Justiça desde 2009, quando denunciou mais de 130 mil potenciais sonegadores de impostos de vários países europeus.
Na Espanha, Falciani encabeça a lista de candidatos da Rede Cidadã Partido X, um partido político criado em meio aos protestos contra a crise financeira.
"O Partido X não tem líderes; a Rede Cidadã Partido X é um imenso grupo de trabalho que se baseia na responsabilidade distribuída", explica Falciani, em texto publicado na página da agremiação.
O Partido X foge do tradicional. Não realizou nenhum grande comício, apenas pequenos encontros com eleitores nas ruas e nas praças públicas.
Entre mais de mil atos realizados pelo grupo nesta campanha, Falciani apareceu em público em apenas duas ou três ocasiões. Sem aviso prévio e sem alarde.
Rubén Sáez, um dos coordenadores da campanha do partido, admite que essa é uma limitação importante, mas que a candidatura do engenheiro tem tido resposta positiva.
Para ele, a figura de Falciani deu um impulso à campanha do Partido X em sua tentativa de "chegar a mais pessoas".
"Só sabemos que ele vai aparecer pouco tempo antes. Mas estamos acostumados a trabalhar em tempo real", comenta o coordenador.
Falciani aderiu ao partido quando o projeto já estava em andamento. "É como um companheiro a mais, que propõe soluções concretas. Ele contribui com o conhecimento profundo que tem dos mecanismos de evasão fiscal, e participa de maneira efetiva da luta contra a fraude fiscal e contra a corrupção", justifica Sáez.
Antipartido

Crédito, Red Ciudadana Partido X
O coordenador esclarece que a Rede Cidadã funciona como um "antipartido". Não há hierarquia nem cargos. Cada um atua, de forma voluntária, onde mais se necessita ou onde o trabalho seja mais efetivo.
O objetivo do partido nestas eleições europeias, diz Sáez, é evitar que "as pessoas que nos levaram à situação em que nos encontramos sejam as mesmas que nos digam como sair dela".
A Rede Cidadã Partido X é formada, quase em sua totalidade, por participantes e impulsores do movimento dos indignados, conhecido como #15M, que surgiu em maio de 2011.
Naqueles encontros de espanhóis que ocuparam praças e ruas em todo o país para protestar contra a crise e reivindicar mudanças socioeconômicas nasceram as primeiras conversas do que viria a se tornar a Rede Cidadã.
"Nenhuma sigla pode representar o que foi e o que é o #15M, um movimento muito maior do que qualquer partido político", pondera Sáez. "Somos apenas um filho a mais do #15M."
A lista de candidatos do Partido X ao Parlamento Europeu tem pessoas de diferentes perfis profissionais, mas nenhuma delas com carreira política profissional. Esse, aliás, foi um dos critérios para se chegar aos nomes dos representantes do partido.
A elaboração do programa eleitoral também teve a colaboração direta dos cidadãos. "Temos umas 1,5 mil emendas no programa e cerca de 2 mil no nosso plano de emergência para sair da crise", indica Sáez.
Esse é um exemplo do que o "antipartido" chama de "romper o bloqueio por parte das instituições e dos partidos políticos tradicionais" para que os próprios cidadãos elaborem as soluções e tomem o espaço eleitoral.
"Trata-se de que a democracia não seja nunca mais um cheque em branco que damos a cada quatro anos a um grupo de pessoas, sem que os cidadãos possam intervir quando as coisas não vão bem", afirma.
A ideia é que essa participação colaborativa ocorra também no Parlamento Europeu.
Saéz reconhece que, como o partido é emergente, é difícil ter um impacto nas urnas nestas eleições. Mas afirma que tem sido "gratificante" o diálogo com as pessoas.
"Os partidos políticos estão obsoletos e já não funcionam como uma corrente de transmissão da vontade cidadã. A Rede nasce para mudar esse conceito de organização política", reforça Sáez.
Representantes do partido confirmaram que Falciani votará em seu colégio eleitoral, em Barcelona.
























