Discussão sobre clima divide países em desenvolvimento

Tuvalu exige acordo legal mais restritivo que Protocolo de Kyoto
Legenda da foto, Tuvalu exige acordo legal mais restritivo que Protocolo de Kyoto

Por algumas horas, as negociações chegaram a ser suspensas nesta quarta-feira na principal plenária da reunião das Nações Unidas sobre o clima, em Copenhague, a pedido da representação de Tuvalu – que exige um acordo legal que seja mais restritivo do que o Protocolo de Kyoto.

A iniciativa do pequeno país-ilha, um dos mais ameaçados pelo aumento do nível dos mares, levou a uma rara divisão no grupo G77/China, que costuma negociar em bloco pelos países em desenvolvimento.

O negociador-chefe da ilha, Ian Fry, afirmou que o país não vai aceitar nada menos do que a discussão de um novo protocolo legal, apresentando formalmente há seis meses, e mais rigoroso que Kyoto.

"O meu primeiro-ministro e vários outros chefes de Estado têm a intenção clara de vir a Copenhague para assinar um acordo com validade legal”, afirmou Fry. “O nosso futuro depende desse encontro.”

Limite de 350 ppm

A iniciativa teve o apoio de outros integrantes da Associação dos Pequenos Países-Ilha (Aosis, na sigla em inglês), que inclui as ilhas Cook, Barbados e Fiji, além de países pobres da África, como Serra Leoa, Senegal e Cabo Verde.

Vários países do G77 apoiaram a proposta de Tuvalu, que visa a limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC, e estabilizar as concentrações de gases que provocam o efeito estufa em 350 partes por milhão (ppm), em vez de 450 ppm, como querem os países industrializados e alguns em desenvolvimento, entre eles, o Brasil.

Atualmente, a concentração de gases do efeito estufa na atmosfera gira em torno de 387 ppm.

Para países emergentes, como Brasil, China, Índia e África do Sul, o limite de 350 ppm não é bem aceito, porque pode se tornar uma barreira para o crescimento econômico.

Segundo Martin Kaiser, diretor de políticas internacionais do Greenpeace, a suspensão, mesmo que por poucas horas, exigida por Tuvalu mostra que a questão de o acordo a sair de Copenhague ter ou não valor legal é uma das mais importantes.

"Para os países mais vulneráveis do mundo, é questão de sobrevivência. Só um acordo com valor legal pode dar a estes países a confiança de que o seu futuro está garantido”, disse Kaiser.

O secretário-executivo da conferência, Yvo de Boer, minimizou a suspensão. "Se houve uma suspensão, foi apenas para o almoço", disse.

Desconfianças

Enquanto o bloco dos países em desenvolvimento parece apresentar rachaduras, a histórica desconfiança entre o grupo e os países industrializados não mostra sinais de redução.

Em entrevista coletiva da União Europeia, o negociador-chefe sueco, Anders Turesson, reclamou da ação da China, com apoio do G77, que estaria vetando a discussão de metas para países desenvolvidos no grupo que negocia um acordo pós-Kyoto.

Os chineses defendem que as metas dos países ricos sejam estabelecidas pelo grupo que negocia a expansão do Protocolo de Kyoto, e não em um acordo separado.

O problema, para os europeus, é que os Estados Unidos não participam das discussões de Kyoto, já que nunca ratificaram o tratado.

“O processo está sendo usado erroneamente. Estamos sendo impedidos de negociar”, reclamou Turesson.

O sueco deixou claro que a primeira opção da Europa é a criação de um único instrumento legal que aborde todos os países.

Para os europeus, a discussão sobre o formato está impedindo que as “verdadeiras questões” sejam discutidas – adaptação, mitigação e financiamento do combate às mudanças climáticas.