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Atualizado às: 05 de julho, 2004 - 20h43 GMT (17h43 Brasília)
 
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Bertolucci escreve sobre Brando: 'Na escuridão, perguntei se ele sabia o quanto o amava'
 

 
 
Brando em 'O último tango em Paris'
Brando contracenou com Maria Schneider na produção de 1972
Com lágrimas nos olhos, me ocorre o pensamento de que no próprio ato de morrer, Marlon tornou-se imortal.

Mas talvez ele já fosse imortal naquela época, em Paris, na Pont de Passy.

Isso é certamente o que toda a equipe de O Último Tango em Paris achava, hipnotizada por sua presença.

Nenhum de nós tinha encontrado uma lenda viva como ele, e, para os amantes do cinema, ele era talvez a única lenda verdadeira que já existiu.

Eu me lembro da primeira cena que filmamos.

Eu gritei, "OK, está bom", mas o operador de câmera, Umetelli, vermelho de vergonha, sussurrou: "Desculpe. Assim que vi Brando através da câmera, fiquei paralisado, só olhando para ele". Tivemos de filmar a cena de novo.

No Actors' Studio, ele aprendeu melhor do que ninguém como se transformar em outra pessoa, um revolucionário mexicano, um Hell's Angel, um estivador de Nova York, um rio, ou uma árvore.

No cinema, um ator muitas vezes precisa realmente entrar na pele de outra pessoa.

Mas eu pedi a ele para fazer o oposto: trazer para a sua atuação toda a experiência da sua vida, como homem e como ator.

Quando terminamos de filmar, ele me disse:

"Nunca vou fazer um filme como esse de novo. Eu não gosto muito de atuar mesmo, mas isso foi muito pior."

"Do começo ao fim me senti violentado. Detalhes íntimos sobre mim, sobre minha vida, até sobre meus filhos, foram arrancados de mim e expostos para o mundo."

Depois disso, ele parou de falar comigo por mais ou menos 12 anos e me fez sofrer terrivelmente, fazendo com que eu duvidasse seriamente de mim mesmo e do meu trabalho.

Então um dia liguei para ele, e ele me segurou no telefone por duas horas.

Tínhamos começado a nos falar novamente, como fazíamos antes, e tínhamos muito o que falar. Marlon era diabolicamente curioso a respeito de tudo.

A última vez que o vi foi há vários anos, na casa dele, em Mulholland Drive, às duas horas da tarde.

Nós falamos e falamos, e logo já eram oito horas, a noite tinha caído.

Na escuridão, eu perguntei se ele tinha jamais percebido o quanto eu o amava.

 
 
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