'Estamos vendo você': o recado do Reino Unido à Rússia em acusação de atividade 'maligna' que ameaçava infraestrutura submarina na costa britânica

Crédito, Ministério da Defesa do Reino Unido

Legenda da foto, Foto de arquivo da fragata britânica HMS St. Albans, que foi destacada para rastrear o submarino russo
    • Author, Olivia Ireland
    • Role, BBC News
    • Author, Thomas Copeland
    • Role, BBC Verify
    • Author, Frank Gardner
    • Role, Repórter de segurança, BBC News
  • Tempo de leitura: 6 min

Três submarinos russos realizaram uma operação "secreta" sobre oleodutos e cabos submarinos nas águas ao norte do Reino Unido, afirmou o ministro britânico da Defesa, John Healey.

Um navio de guerra e uma aeronave do Reino Unido foram destacados para deter a atividade "maligna" de Moscou e "não houve evidências" de danos à infraestrutura britânica no Oceano Atlântico, segundo Healey.

Dirigindo-se especificamente ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, o ministro declarou:

"Estamos vendo você. Observamos sua atividade sobre nossos cabos e oleodutos e você deve saber que qualquer tentativa de danificá-los não será tolerada e trará sérias consequências."

A Embaixada da Rússia em Londres negou as acusações de Healey, segundo a agência de notícias estatal russa Tass.

O Reino Unido depende dos seus cabos submarinos e oleodutos para o transporte de dados e energia.

Existem cerca de 60 cabos submarinos que chegam a diversos pontos ao longo do litoral britânico, particularmente no leste e no sudoeste da Inglaterra.

Mais de 90% do tráfego diário de internet do Reino Unido passa por esses cabos submarinos.

Pule Whatsapp! e continue lendo
No WhatsApp

Agora você pode receber as notícias da BBC News Brasil no seu celular.

Clique para se inscrever

Fim do Whatsapp!

Healey declarou na quinta-feira (9/4), em entrevista coletiva em Downing Street (a sede do governo britânico, em Londres) que a Rússia havia enviado um submarino classe Akula como tática de distração, enquanto dois dos seus submarinos espiões Gugi inspecionavam aqueles cabos.

O ministro afirmou que o submarino de ataque logo saiu das águas britânicas e retornou para a Rússia ao ser monitorado, enquanto as duas embarcações Gugi permaneceram no local.

Segundo a Tass, a Embaixada russa afirmou que o país "não estava ameaçando a infraestrutura submarina, que realmente é fundamental para o Reino Unido. Não estamos usando retórica agressiva neste sentido".

A Marinha britânica destacou a fragata HMS St. Albens, o navio-tanque RFA Tidespring e os helicópteros antissubmarinos Merlin para rastrear todos os três submarinos russos.

Outros países se envolveram para acompanhar a atividade russa, mas Healey mencionou nominalmente apenas a Noruega.

"Nossas forças armadas deixaram [a Rússia] certa de que eles estavam sendo monitorados, que seus movimentos não eram secretos, como planejava o presidente Putin, e que sua tentativa de realizar uma operação dissimulada havia sido exposta", declarou Healey.

"Nós os observamos, conseguimos rastreá-los e lançamos boias de sonar para demonstrar que estávamos monitorando cada hora das suas operações."

Crédito, Reuters

Legenda da foto, O secretário britânico da Defesa, John Healey, revelou a atividade dos submarinos russos nas águas ao norte do Reino Unido durante entrevista coletiva na sede do governo britânico, em Londres

Os submarinos Gugi representam uma ameaça considerável para o Ocidente.

A sigla significa, em russo, Diretório Principal de Pesquisa em Águas Profundas. O organismo faz parte da Marinha russa, mas é tão sigiloso que se reporta diretamente ao ministro da Defesa e ao presidente do país.

Sua sede fica em São Petersburgo, no mar Báltico. Mas a organização tem uma base no Ártico, de onde pode se deslocar até a baía de Olenya, na península de Kola, onde fica a frota estratégica de submarinos nucleares da Rússia.

A Gugi é especializada em vigilância, sabotagem e reconhecimento subaquático. Nenhuma outra nação do planeta, exceto os Estados Unidos, detém a mesma capacidade de operar equipamento militar em profundezas extremas.

Esse equipamento inclui o tipo de submarinos em miniatura não tripulados que a Rússia teria usado para navegarem sobre os cabos de dados britânicos no Atlântico Norte.

Esses "minissubmarinos" podem ser lançados secretamente, à noite, de navios espiões como o Yantar, que havia sido observado vagando em torno do Canal da Mancha. Eles têm a capacidade de cortar cabos ou, em alguns casos, de se conectar a eles, para permitir que a Rússia monitore os dados sendo transmitidos.

Tudo isso se encaixa em uma situação de guerra híbrida: atos hostis que não chegam a configurar um ataque letal imputável ao seu autor.

O receio do Reino Unido e da Otan é de que toda a vigilância dissimulada russa dos oleodutos e cabos submarinos ocidentais se destine a oferecer a Moscou um ponto de partida, caso algum dia surjam hostilidades.

Se isso acontecer, a expectativa é que a Rússia tentaria interromper ou prejudicar ao máximo possível os dados britânicos, acionando dispositivos que possam ter sido posicionados previamente, antes de uma eventual guerra.

Healey também acusou Putin de tentar capitalizar a "distração" mundial com a guerra no Oriente Médio e afirmou que a Rússia é quem representa a "principal ameaça à segurança do Reino Unido".

Ele declarou que Moscou ainda "representa uma ameaça", mas expressou sua confiança de que o Reino Unido poderá rastrear e monitorar atividades futuras, continuando a expor "qualquer operação secreta que Putin deseje realizar e possa ameaçar nossos interesses vitais".

Os oleodutos e cabos submarinos fazem parte de uma infraestrutura fundamental para vários países do mundo.

Mais de 600 cabos submarinos conectam o planeta por 1,4 milhão de quilômetros. Eles transmitem eletricidade e informações através dos mares e oceanos, muitas vezes subindo à superfície em locais discretos.

O pesquisador de energia marinha Sidharth Kaushal, do Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), declarou à BBC que a unidade militar russa Gugi opera minissubmarinos de águas profundas, respaldados por uma grande "nave-mãe".

Esses veículos são "alvos complexos", segundo Kaushal, pois são projetados para evitar serem detectados, reduzindo a quantidade de ruído emitida, a água que eles deslocam e sua capacidade de detecção por sensores magnéticos.

Kaushal destacou que, provavelmente, os submarinos conseguiram recolher dados sobre a rede britânica de cabos submarinos, apesar de serem monitorados pela Marinha do Reino Unido.

Ele afirma que a capacidade britânica de restringir suas operações em tempo de paz é "limitada" e destaca que organizações privadas e militares podem realizar legalmente esse monitoramento, "desde que estejam em águas internacionais".

Mas Kaushal afirma que a Marinha britânica pode ter reunido informações de inteligência vitais ao monitorar a operação, a fim de aprender mais sobre o que está sendo mapeado, as táticas usadas pela Rússia e "possivelmente recuperar algum objeto de vigilância deixado para trás".

Os gasodutos do mar do Norte

O Reino Unido também depende de uma rede de gasodutos subaquáticos, principalmente no mar do Norte. Eles fornecem energia essencial de plataformas continentais do Reino Unido e da Noruega.

Eles incluem o gasoduto Langeled, com 1.166 km de extensão, entre a Noruega e o Reino Unido. Cerca de 77% das importações britânicas de gás vêm da Noruega, através dos gasodutos do mar do Norte.

A BBC revelou em 2025 que a Rússia vinha praticando "guerra híbrida" contra o Reino Unido e a Europa ocidental, a fim de punir ou dissuadir as nações ocidentais de manter seu apoio militar à Ucrânia.

A "guerra híbrida" ocorre quando um Estado hostil realiza um ataque anônimo, que pode ser negado, normalmente em circunstâncias altamente suspeitas, que não pode ser considerado um ato de guerra atribuído ao seu autor.

A Embaixada russa já havia declarado anteriormente "não ter interesse pelas comunicações submarinas britânicas".