Navios relatam ser alvo de ataques após Irã voltar a fechar o Estreito de Ormuz

Crédito, Getty Images

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A sucessão de anúncios contraditórios sobre o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas expõe um cenário de incerteza crescente no Golfo Pérsico, com impactos diretos sobre o comércio global de energia.

Segundo a mídia estatal iraniana, o Irã voltou a fechar a passagem estratégica neste sábado (12/4), por volta das 05h30 (horário de Brasília), em resposta à decisão dos Estados Unidos de manter o bloqueio naval aos portos iranianos.

Autoridades iranianas afirmam que o fechamento ocorre porque os EUA "não cumpriram sua parte" no entendimento mais recente, ao manter o bloqueio de navios com destino ou origem em portos iranianos.

A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, por volta das 10h (horário de Brasília), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".

Segundo informações compartilhadas pelo Comando Central dos EUA (CentCom) neste sábado (18/4), 23 navios foram forçados a mudar de rota nas proximidades do Estreito de Ormuz desde o início do bloqueio, em 13 de abril — um indicativo do impacto direto da medida sobre o tráfego marítimo na região.

A situação atual contrasta diretamente com o discurso da Casa Branca, que havia indicado uma normalização rápida do tráfego marítimo na região, e a troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.

Horas mais tarde, por volta das 19h (horário de Brasília), o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.

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Na manhã de sábado, a situação voltou a mudar.

Por volta das 05h30 (horário de Brasília), as Forças Armadas iranianas anunciaram que retomariam o controle total da via marítima, afirmando que a passagem de embarcações passaria a depender de autorização do Irã. Em comunicado, autoridades iranianas classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".

Os iranianos afirmam que a situação voltou ao estado de alguns dias atrás, com o estreito sob controle estrito das forças armadas do país.

Um petroleiro no Estreito de Ormuz relatou ter sido abordado e alvejado por duas lanchas operadas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, segundo as Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO).

O incidente ocorreu a cerca de 37 km a nordeste de Omã, e o navio e sua tripulação estão a salvo. Em outro episódio, ao menos dois navios mercantes relataram terem sido atingidos por disparos enquanto tentavam cruzar a rota, de acordo com fontes ouvidas pela agência Reuters.

Em outro episódio, as Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO) informaram que um navio cargueiro foi atingido por um "projétil desconhecido" a cerca de 25 milhas náuticas a nordeste de Omã, causando danos a parte dos contêineres. As autoridades disseram que o caso está sob investigação.

Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do dia. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.

Fontes do setor marítimo também disseram à Reuters que embarcações comerciais receberam mensagens de rádio da Marinha iraniana informando que o Estreito de Ormuz havia sido novamente fechado. Segundo essas fontes, os petroleiros foram avisados de que nenhuma embarcação está autorizada a atravessar a passagem.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.

A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.

O presidente americano também sugeriu que um acordo histórico com Teerã poderia estar próximo — avaliação que não se confirma com a nova decisão iraniana.

Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.

Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.

No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.

Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.

Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo. A medida entrou em vigor às 04h30 (horário de Brasília), com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.

Ainda assim, há expectativa de que uma segunda rodada de negociações possa ocorrer, após uma primeira reunião maratona entre representantes dos dois países no Paquistão, no fim de semana passado, que terminou sem acordo.

Em meio à escalada, uma mensagem atribuída ao líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, foi divulgada por veículos estatais por ocasião do Dia do Exército. O texto não faz menção direta nem ao Estreito de Ormuz nem às negociações com os Estados Unidos — dois dos temas centrais do momento —, mas afirma que as forças navais iranianas estão prontas para fazer "os inimigos provarem o gosto de novas derrotas", sem dar mais detalhes. Khamenei não aparece em público desde que assumiu o cargo, no início de março.

Para analistas, há sinais de algum avanço diplomático, como a possibilidade de um memorando de entendimento entre EUA e Irã para viabilizar novas negociações. Ainda assim, um acordo mais amplo — especialmente diante de décadas de hostilidade entre os dois países — permanece distante.