Por que guerra no Irã fez ações da Petrobras baterem recorde – e como isso impacta a empresa e o Brasil
Crédito, Fernando Frazão/Agência Brasil
- Author, Luiz Antônio Araujo
- Role, De Porto Alegre para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 8 min
A recente valorização das ações preferenciais PETR4 da Petrobras (títulos que oferecem prioridade aos acionistas no recebimento de dividendos e compensações, geralmente não dão direito a voto e servem de referência para avaliação do valor de mercado da companhia) na Bolsa de Valores (B3) reflete a alta da principal commodity da estatal: o petróleo.
Em razão da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o setor petrolífero mundial, no qual a companhia brasileira está inserida, vive uma enorme disparada de preços.
Mesmo assim, a corrida aos papéis da Petrobras talvez não ocorresse com a mesma intensidade sem a retomada de investimentos exploratórios e a modernização do parque de refino.
Essa é a opinião de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, que enfatizam as oportunidades abertas para a Petrobras diante da crise no Oriente Médio, classificada por analistas do banco norte-americano Goldman Sachs como um autêntico choque do petróleo – o terceiro dos últimos 50 anos, depois dos registrados em 1973 e 1979.
Diferentemente dos choques anteriores, que apanharam o Brasil na dependência radical dos grandes exportadores no Oriente Médio, o atual encontra o país autossuficiente em produção de petróleo bruto, do qual é exportador.
Segundo balanço da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) divulgado na quarta-feira (1º), a produção brasileira de petróleo e gás natural bateu recorde em fevereiro, alcançando 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia (boe/d).
"Considerando que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas tributárias [do Brasil], assim como dividendos fluindo para o Tesouro", afirmam os economistas István Kecskeméti e Zoltan Horváth em análise divulgada no dia 11 de março no site da consultoria húngara OTP Global Markets.
O país ainda necessita importar, entretanto, derivados como diesel, gasolina e querosene de aviação.
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Na esteira da produção recorde de fevereiro, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou que a empresa cogita a possibilidade de atingir a autossuficiência em diesel em cinco anos – originalmente, a intenção era suprir 80% da demanda nesse período.
"Muito provavelmente, porque a Petrobras adora desafios, quem sabe a gente chega com a possibilidade de ter um novo plano de negócios capaz de entregar a autossuficiência do Brasil em diesel", disse na quarta-feira (1º).
O anúncio coincide com registros de racionamento ou desabastecimento de diesel no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso, onde o insumo é determinante para o sucesso da colheita da safra de verão, que inclui culturas como soja, milho e arroz.
Preocupado com os reflexos da crise sobre sua imagem e a campanha pela reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com indignação a um leilão de gás liquefeito de petróleo (GLP), o popular gás de cozinha, da Petrobras, que vendeu o produto às distribuidoras com preços até 100% maiores do que os cobrados na tabela da companhia.
"Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que fizeram", disse.
Lula ameaçou anular o processo, mas isentou a direção da Petrobras de responsabilidade pelo episódio.
"Para a economia brasileira, a grande preocupação centra-se no diesel – e, acima de tudo, nos fertilizantes", afirma o ex-vice-presidente do Banco Mundial Otaviano Canuto em artigo publicado na quarta-feira (1/4) no site do Centro de Política para o Novo Sul (Policy Center for the New South).
O economista Mahatma Ramos, diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra, vinculado à Federação Única dos Petroleiros (FUP), afirma que o preço das ações da Petrobras tem sido historicamente afetado pelas situações externa e interna.
Ele lembra, por exemplo, que a ação PETR4 chegou a valer R$ 23 em abril de 2021, durante a pandemia do novo coronavírus.
Crédito, Tânia Rêgo/Agência Brasil
No primeiro semestre de 2022, em razão da guerra da Ucrânia, o preço chegou a R$ 32, caindo depois diante das incertezas da sucessão presidencial daquele ano.
"Desde janeiro de 2023, o que se vê é um processo de recuperação do valor das ações", sustenta.
Essa escalada prosseguiu até o início de 2024, quando o preço da ação PETR4 estabilizou-se entre R$ 35 e R$ 42, e voltou a cair no ano seguinte por conta da desaceleração da economia chinesa e da guerra comercial.
"Agora, em 2026, [o preço da ação] explode de novo, alcançando quase R$ 50 de valor de face."
Para se ter uma ideia do peso da guerra do Irã na alta das ações PETR4, basta olhar o calendário.
No dia 27 de fevereiro, uma sexta-feira, véspera do início dos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, a cotação desses títulos fechou em baixa de 0,28 pontos (–0,71%), tendo sido negociados na abertura a R$ 39,92, alcançando máxima de R$ 40,27 e fechando a R$ 39,33.
Em 2 de março, quando os mercados reabriram após o final de semana, as PETR4 arrancaram a R$ 41,30 e fecharam a R$ 41,13, registrando uma valorização de 1,8 ponto (4,58%).
Nos 22 dias seguintes de pregão, os títulos preferenciais da Petrobras deixaram de fechar no azul em apenas sete.
Em 1º de abril, fecharam a R$ 47,29 – uma valorização de cerca de 20% em aproximadamente um mês.
Quando se analisa a cotação do barril de petróleo Brent (cru), que serve de parâmetro para todo o setor petrolífero, as correspondências com as ações da Petrobras são evidentes.
Em 27 de fevereiro, o barril Brent fechou a US$ 73,25, e em 2 de março, a US$ 77,75.
No dia 2 de abril, esteve cotado a US$ 107,94, depois de atingir um pico de US$ 116,25 no dia 9 de março, quando ficou claro que o Irã utilizaria como arma de guerra a ameaça de bloqueio do estreito de Ormuz, por onde é escoado um quinto da produção petrolífera global.
Para o professor do Programa de Pós-graduação Profissional em Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maurício Weiss, o comportamento das ações da estatal brasileira de petróleo pode ser descrito com mais precisão como uma "síntese de fatores conjunturais e estruturais".
"Este ano, a Petrobras já subiu mais de 50% [em valor de mercado]. Em março, ela subiu 18%. Isso decorre de fato do conflito no Oriente Médio, com a alta dos preços dos combustíveis", explica Weiss.
O professor lembra, porém, que a empresa já vinha apresentando desempenho notável em termos de produtividade e lucratividade antes da eclosão da guerra.
"Desde o ano passado, houve uma grande elevação do lucro da Petrobras em relação ao [ano] anterior [2024]. Chegou a praticamente 200% de aumento [do lucro], superior a R$ 110 bilhões. Isso é resultado do aumento da produção de petróleo e gás, especialmente por conta do pré-sal", assinala.
O economista Cloviomar Cararine, do Departamento Intersindical de Estudos Estatísticos e Socioeconômicos (Dieese), ressalta que a avaliação do valor de uma empresa não é 100% neutra e objetiva, mas resulta da confluência de análises operacional, política e de mercado.
"Uma empresa pode ser muito rentável, ter um futuro muito promissor, mas, por uma série de questões políticas, por exemplo, acabar mal-avaliada", afirma.
"Ou o contrário: uma empresa pode estar se desmontando, completamente falida, e, por avaliação especulativa de mercado, ver subir o preço de suas ações."
Maior empresa da América Latina em valor de mercado, estimado em mais de US$ 130 bilhões, a Petrobras teve seu perfil incrementado pela descoberta e exploração das reservas situadas na camada pré-sal das águas territoriais brasileiras no Atlântico, entre 5 mil e 7 mil metros de profundidade, a partir de meados da década de 2000.
Na década seguinte, porém, a companhia foi alvo de um megaescândalo de corrupção, investigado pela chamada Operação Lava-Jato, que levou ao processo e condenação de pelo menos quatro diretores da estatal por crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
O caso foi decisivo para o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016.
No governo seguinte, do antes vice-presidente Michel Temer (MDB) (2016-2019), a gestão da Petrobras sofreu uma guinada por meio do chamado Preço de Paridade de Importação (PPI), da venda de ativos e da abertura ao capital estrangeiro na exploração do pré-sal.
Essa política forneceu o pano de fundo para a greve dos caminhoneiros, em 2018 – que tinha como uma das bandeiras o protesto contra o alto preço do diesel –, e para a forte alta do preço dos combustíveis em 2022, logo depois do início da invasão russa da Ucrânia, já sob Jair Bolsonaro (2019-2022), sucessor de Temer.
Personagem central do escândalo da Lava-Jato, que culminou em sua condenação e prisão por 580 dias entre 2018 e 2019 (as condenações foram anuladas em 2021 pelo Supremo Tribunal Federal), Lula elegeu-se no ano seguinte com a promessa de sepultar o PPI, sob o qual o litro da gasolina comum chegou a custar R$ 8,95 em 2022.
"Nós não vamos pagar o preço internacional, nós vamos pagar o preço do custo da gasolina aqui no Brasil", disse Lula em maio daquele ano.
Para o presidente, a empresa devia se preocupar em induzir o desenvolvimento.
"Porque a Petrobras tem que pensar no investimento, (...) pensar em 200 milhões de brasileiros que são donos dessa empresa ou são sócios dessa empresa", afirmou.
Sob pressão da alta do petróleo a partir do início da guerra no Oriente Médio, o governo Lula adotou uma série de medidas mitigadoras como a redução a zero do PIS/Cofins sobre o diesel, o subsídio de R$ 0,32 por litro desse combustível e a redução de alíquotas de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) pactuada com todos os 27 governadores.
Crédito, Marcelo Camargo/Agência Brasil
Cararine afirma que a eleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2024, e a guerra no Irã servem como lembrete de que a economia mundial continua largamente dependente dos combustíveis fósseis.
A China, por outro lado, embora continue sendo a maior importadora de petróleo do mundo, aposta na diversificação da sua matriz energética.
"A China tem petróleo, carvão e minerais críticos, mas tem apostado nos últimos anos na não-dependência do petróleo."
A Petrobras, avalia, deveria levar em conta a existência desses dois fatores – de um lado, o negacionismo climático de Trump e a nova guerra do Golfo, e de outro, o interesse da China em energia limpa – e converter-se de empresa petrolífera em empresa de energia.
"O futuro vai depender dessa relação de forças. Se, por um lado, esse modelo americano, que considero insustentável, permanecer por mais tempo, isso adiará a transição energética. Se houver uma mudança de direção nos Estados Unidos, com um governo mais preocupado com isso, crescerá o espaço para políticas que vão no mesmo sentido", finaliza.
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