Irã rejeita proposta de cessar-fogo; Trump mantém ultimato a Teerã para terça

Crédito, Evan Vucci/Reuters

    • Author, Bernd Debusmann Jr
    • Role, Da BBC News em Washington
  • Tempo de leitura: 5 min

A agência de notícias estatal iraniana (IRNA, na sigla em inglês) informou que Teerã apresentou sua resposta a uma proposta dos EUA para encerrar a guerra, rejeitando o cessar-fogo, afirmando que é necessário um fim permanente da guerra.

A agência relata que a resposta de 10 pontos inclui uma lista de exigências iranianas, como "o fim das hostilidades na região, um protocolo que garanta a passagem segura pelo Estreito de Ormuz, bem como a reconstrução e o levantamento das sanções".

A IRNA acrescentou que o presidente dos EUA, Donald Trump, "ao estender o prazo mais uma vez, recuou de suas ameaças anteriores".

Em entrevista coletiva no início da tarde desta segunda-feira (6/4), Trump chamou o Irã de "malvado" e reforçou as ameaças contra a infraestrutura civil do país.

"O país inteiro pode ser destruído em uma noite, e essa noite pode ser amanhã", afirmou ele.

No domingo (5/4), o presidente americano estendeu o ultimato que havia dado na sexta-feira, afirmando que "terça-feira será o Dia da Usina Elétrica e o Dia da Ponte" - em uma postagem posterior, ele disse "terça-feira, 20h, horário do leste!"

Trump foi rápido em declarar vitória após o resgate do segundo tripulante de um caça F-15 abatido sobre o Irã, afirmando que a operação dramática e bem-sucedida em território iraniano "prova, mais uma vez, que alcançamos domínio e superioridade aérea esmagadores".

Observadores, no entanto, pintam um quadro mais complexo do que isso significa para os EUA no Irã.

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Embora a missão tenha sido um sucesso, os eventos dos últimos dias — nos quais duas aeronaves foram abatidas e pelo menos um helicóptero foi atingido por tiros — destacam que as ameaças às aeronaves e aos militares dos EUA permanecem, mesmo após semanas de intensos ataques dos EUA e de Israel contra a infraestrutura militar do Irã e das declarações do presidente de que Teerã "não tinha mais nenhum equipamento antiaéreo".

Diversas fontes de Washington que falaram à BBC especularam que a perda das aeronaves e a complexidade da operação para resgatar os pilotos poderiam dissuadir Trump de qualquer operação terrestre para assumir o controle do principal terminal de exportação de petróleo do Irã na Ilha de Kharg e outros locais no Golfo, ou para apreender urânio altamente enriquecido enterrado em profundidade no Irã.

Essas operações — planejadas por estrategistas militares e apresentadas ao presidente como opções — são extremamente complexas e correm o risco de expor as forças americanas às capacidades militares do Irã, incluindo sistemas de defesa aérea portáteis difíceis de se detectar, conhecidos como Manpads, que são mais eficazes contra aeronaves voando em baixa altitude.

Por outro lado, o fato de as tropas americanas terem conseguido entrar em um ambiente hostil e estabelecer um aeródromo avançado e um ponto de reabastecimento bem debaixo do nariz dos iranianos — mantendo-o por horas enquanto duas aeronaves eram destruídas e outras de reposição enviadas — pode encorajá-lo.

Isso poderia convencer o governo de que uma operação aerotransportada ou anfíbia contra alvos no Irã tem boas chances de sucesso.

Esse recado seria ouvido pelos militares americanos que sobrevoam o espaço aéreo iraniano enquanto o conflito continua, e por aqueles que se preparam para um possível destacamento.

Trump também enviou mensagens contraditórias sobre o caminho a seguir, dizendo a repórteres em uma série de telefonemas no domingo que acredita que um "acordo" com o Irã pode estar próximo.

Se isso falhar, ele disse repetidamente no Truth Social, o tempo está se esgotando para o prazo dado antes que os EUA comecem a atacar usinas de energia e pontes iranianas.

Se o Estreito de Ormuz não for reaberto, publicou Trump em uma mensagem repleta de palavrões no domingo dirigida ao regime iraniano, os iranianos irão em breve estar "vivendo no inferno". Em uma entrevista por telefone à Fox News, Trump também sugeriu que poderia "tomar" o petróleo do Irã, sem fornecer mais detalhes.

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, As autoridades iranianas afirmaram que um helicóptero militar americano caiu durante uma missão de resgate de um tripulante desaparecido

Uma campanha ampliada contra a infraestrutura iraniana e alvos energéticos representaria uma escalada, com grupos de direitos humanos alertando para o impacto sobre civis e potenciais crimes de guerra.

Os críticos do presidente provavelmente interpretarão isso como um sinal da frustração de Trump com o fato de os EUA não terem conseguido garantir a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz, um corredor global vital para petróleo e outras commodities.

Até o momento, os apoiadores do presidente têm se unido em apoio ao governo e seus esforços para resgatar os tripulantes.

Para Trump, o resgate representa uma "vitória" tanto aos olhos do público quanto dentro das Forças Armadas dos EUA.

O resgate serviu para reforçar a disposição do governo em colocar outros americanos em perigo, em um esforço para cumprir o princípio do Soldier's Creed (Credo do Soldado) de que nenhum militar americano jamais é abandonado.

Mas alguns – até mesmo fervorosos apoiadores do movimento Make America Great Again, de Trump – já se sentem desconfortáveis ​​com a perspectiva de uma guerra cara e complexa, com um desfecho incerto, que poderia levar a baixas americanas.

No entanto, o resgate dos dois pilotos privou o Irã do que teria representado uma enorme vitória de propaganda.

A imagem de militares americanos em cativeiro iraniano muito provavelmente teria se tornado a principal notícia relacionada à guerra nos EUA e sequestrado a narrativa de Trump de uma vitória rápida e limpa.

Os comentários de Trump no fim de semana contrastam com vários que ele fez na semana passada, incluindo um discurso televisionado em 1º de abril, no qual sugeriu que os EUA já haviam criado as condições necessárias para que outros países se envolvessem no Estreito.

Trump também havia sugerido recentemente que estava disposto a "deixar" o Irã, mesmo que um acordo não fosse alcançado.

Mas agora ele parece ter mudado de rumo, na esperança de que intensificar a ameaça de ataques devastadores à infraestrutura essencial do país possa levar a liderança de Teerã à mesa de negociações.