Mister No, o herói de quadrinhos italianos que moldou imaginário sobre Brasil na juventude iugoslava
Crédito, Sergio Bonelli Editore
- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 12 min
No imaginário da juventude iugoslava dos anos 1970 e 1980, a distante Amazônia era cenário das aventuras e estripulias de um anti-herói, sempre envolvido com belas mulheres, bebendo cachaça e buscando fazer justiça com as próprias mãos —invariavelmente ao lado dos mais fracos e oprimidos.
Politicamente incorreto, muitas vezes. Mas cativante e envolvente.
Criado pelo quadrinista italiano Sergio Bonelli (1932-2011), que assinava sob o pseudônimo Guido Nolitta, o personagem Mister No experimentou grande sucesso na antiga Iugoslávia, país socialista que uniu povos eslavos no sudeste europeu ao longo do século 20.
Hoje, essas histórias acabam sendo lembradas por muitos adultos dos países que resultaram do desmanche iugoslavo, como a Eslovênia.
"Para mim, Mister No é sinônimo de férias. Minha família tinha um trailer e todos os anos íamos para a Dalmácia [região da Croácia] e passávamos acampando por três semanas lá", conta o fotógrafo esloveno Simon Plestenjak, que mora em Bled e hoje tem 49 anos.
"Era muito tempo sem fazer nada e meus pais compravam gibis. Até hoje, pra mim, estado de férias absoluto é com gibi."
Nas bancas iugoslavas, as criações do italiano Bonelli eram a maior oferta, em traduções para o servo-croata.
Entre as revistinhas de Tex, Dylan Dog e Mister No, Plestenjak era daqueles que preferia as aventuras deste último, encantado pelas cenas amazônicas e pelo exótico de uma floresta tão distante.
Em Belgrado, capital da Sérvia, recentemente ouvi devoção semelhante.
"Eu diria que o Mister No, com suas imagens exuberantes e evocativas da Amazônia, moldou de forma decisiva minha percepção do Brasil como algo parecido com uma fruta suculenta, tão cheia de sabor que é impossível mordê-la sem que o suco escorra pelos dedos", compara o historiador e guia turístico Stefan Janković, de 34 anos.
Um piloto de guerra no meio da floresta
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O personagem Mister No na verdade se chama Jerome Drake Junior, ou Jerry Drake. Ao longo da série de quadrinhos, publicada sistematicamente de 1975 a 2006, suas aventuras são ambientadas entre o início dos anos 1950 e o fim dos anos 1960.
Nascido em Nova York no começo da década de 1920, ele é um ex-piloto que combateu na Segunda Guerra servindo os Estados Unidos.
Com sequelas, não se adapta à volta ao país natal e decide fugir para um local distante. Acaba indo parar no Brasil, estabelecendo-se em Manaus, onde ganha a vida como piloto e guia turístico.
Suas aventuras, embrenhando-se em meio à floresta, invariavelmente têm como pano de fundo um universo então visto como selvagem e mítico.
Como diz a sinopse biográfica oficial do personagem, "onde os outros aviões não chegam, chega o pequeno Piper de Mister No", graças à "extrema manobrabilidade de seu avião, somada à sua habilidade como piloto".
Mister No, afinal, pousa "quase em qualquer ponto da floresta selvagem e, em grandes trechos, ainda inexplorada".
Onde não chega de avião, vai pelos rios, "percorrendo o emaranhado de canais que compõem a bacia amazônica em pirogas motorizadas […] ou então marchando pela floresta úmida e escura, onde o perigo acompanha cada passo dos exploradores aventureiros".
Crédito, Edison Veiga
O apelido Mister No é por conta de seu comportamento rude, meio teimoso. Afinal, "Senhor Não" (na tradução para o português) sempre estava contrariando os outros e as regras.
A alcunha teria sido dada a ele ainda durante a guerra, quando o personagem foi feito prisioneiro por um cruel oficial japonês — e este se chocou com o orgulho e a resistência do anti-herói em seguir as ordens do cárcere.
Em uma de suas viagens de avião pelo Brasil, ele conhece em São Luís, no Maranhão, aquele que se tornaria seu melhor amigo: o alemão Otto Kruger, um ex-oficial nazista que, no pós-Guerra, também havia se autoexilado no Brasil.
Kruger é apelidado pelos brasileiros de Esse-Esse, justamente por conta de seu passado nazi — SS.
Muitas das histórias incluem ainda um bar, a cantina do Paulo Adolfo, onde Mister No é caracterizando bebendo cachaça e paquerando mulheres. No fim, o personagem se envolve em alguma encrenca — porque obedece ao seu espírito generoso e rebelde.
É impulsivo. Mas seu ímpetos de raiva são a maneira como ele reage diante do que vê como "injustiças do mundo". Ele está contra a "lógica das coisas", afinal. Daí seu hábito inveterado de dizer não.
"Ele é o típico anti-herói", comenta o esloveno Plestenjak.
O estúdio do criador, Sergio Bonelli Editore, segue publicando edições especiais e releituras com o personagem, com traduções para diversos países, inclusive o Brasil. Em 2019, o anti-herói retornou à ativa, com aventuras inéditas.
Bonelli e o Brasil
Essas aventuras amazônicas moldaram um imaginário de aventuras e de natureza exótica acerca do Brasil. Não foi algo feito sem critérios. O próprio Bonelli era um apaixonado pelo país e esteve diversas vezes no país.
"Ele era muito cuidadoso no sentido de conhecer de perto o ambiente de suas histórias, para dar mais realismo", diz o jornalista e pesquisador de histórias em quadrinhos Gonçalo Junior, autor de, entre outros livros, A Guerra dos Gibis e 50 Anos de Tex no Brasil.
Considerado um dos maiores especialistas brasileiros do gênero, o jornalista e editor Sidney Gusman — que durante 20 anos foi o responsável pela área de planejamento editorial da Mauricio de Sousa Produções — conheceu Bonelli de perto. Foram amigos do início dos anos 1990 até a morte do italiano, em 2011.
"Ele era tipo aquele tio distante que você adora e de vez em quando revê", recorda. "Sempre com uma vibe incrível."
Gusman conta que no escritório do italiano, em Milão, havia fotos dele em excursões pelo interior do Brasil.
"Tinha uma dele sem camisa em uma canoa… Ele era apaixonado pelo Brasil. Chegou a ter um jipe em Marabá, eu acho, para usar lá."
O quadrinista contou a Gusman que em uma de suas viagens cruzou boa parte da Amazônia de barco, desde a Venezuela até o miolo brasileiro da floresta. "
Ele realmente vivia algumas daquelas aventuras, aquelas experiências, para depois criar as histórias do Mister No", comenta o editor.
"Quando vinha ao Brasil, ele brincava comigo que só ia para São Paulo e para o Rio para os eventos e para ver os amigos, porque gostava mesmo era de estar na Amazônia, viver aventuras", acrescenta.
Crédito, Sergio Bonelli Editore
Caiu no gosto dos iugoslavos
Na antiga Iugoslávia, eram quadrinhos que tinham boa penetração no mercado local.
O historiador Janković afirma que uma editora estatal, baseada na cidade de Novi Sad, atual Sérvia, era quem tinha os direitos de produzir as versões servo-croatas dos gibis de Bonelli.
Segundo o editor Andrea Di Lecce, responsável pelos direitos internacionais da Sergio Bonelli Editore, provavelmente os quadrinhos italianos fizeram sucesso entre os eslavos "porque se inseriram em um contexto onde já existia uma forte tradição local" no consumo dessas revistas.
A Bonelli entregava algo que fazia a diferença, aponta Di Lecce: periodicidade regular e longas séries, "que são características de nossas histórias".
Havia consistência, o que criava uma tradição familiar, como o esloveno conta sobre o hábito de sempre comprar gibis nas férias de verão.
A isso se soma o formato econômico — os miolos eram em preto e branco, o papel era de baixa gramatura —, a distribuição capilar nas bancas, graças a editoras locais que apostaram e investiram fortemente nos títulos e, sobretudo, o caráter universal das histórias.
"Elas pertenciam ao macrogênero da aventura popular, muito diferente de narrativas fortemente localizadas como, por exemplo, os comics americanos ou o mangá japonês", compara Di Lecce.
"Não há um único motivo, mas sim uma convergência de circunstâncias favoráveis", acrescenta.
Crédito, Edison Veiga
Gusman acha que o o personagem caiu nas graças do iugoslavo por trazer uma realidade muito diferente.
"Será que era muito exótico para eles as aventuras no meio de uma selva, assim como o faroeste é para nós, brasileiros? Um negócio meio mítico, talvez seja isso."
"Jerry Drake não é um herói 'limpo', nem foi concebido para ser. Ele bebe demais, evita responsabilidades, fracassa com frequência e carrega seu passado como um peso do qual nunca consegue escapar completamente", afirma Janković.
"As pessoas ao seu redor não são melhores nem piores, são apenas humanas. Essa recusa em simplificar a identidade moral é precisamente o que fez com que o Mister No encontrasse um público tão forte e duradouro na Iugoslávia."
Ele acredita que esse tipo de narrativa ecoe inclusive na religiosidade tradicional do povo eslavo, lembrando que no cristianismo ortodoxo, a imperfeição não é um defeito a ser escondido, mas uma condição com a qual se vive.
"Não partimos do pressuposto de que alguém precisa ser puro para ser significativo, nem de que a bondade exige provas constantes. Pecado, dúvida, fraqueza e contradição são partes esperadas da condição humana", explica.
"O Mister No fala essa linguagem com fluência. Ele não instrui o leitor sobre quem é bom ou mau. Confia no leitor para conviver com a ambiguidade e tirar suas próprias conclusões."
Segundo ele, ao trazer histórias em que a justiça é incompleta e as vitórias são comprometidas — e a própria sobrevivência parece acidental —, Mister No ressoou mais fortemente na Iugoslávia do que em culturas "que exigem constante legibilidade moral".
Ao contrários dos Estados Unidos, onde, observa o historiador, "a ética é desenhada com linhas grossas", o Mister No se recusa a oferecer esse conforto, aceitando que "as pessoas são contraditórias, a vida é confusa e o ser humano não exige arcos de redenção perfeitamente amarrados".
Janković diz que, culturalmente, os leitores iugoslavos foram criados "já sabendo que são imperfeitos". E então, não entram em pânico por isso.
"Esse tipo de narrativa não soa subversiva, soa honesta", define.
Na cabeça da criançada iugoslava, aventuras como as de Mister No ainda tinham um quê de exótico, de mítico.
Para Plestenjak, Mister No cativa pelo espírito de aventura.
"Foi o primeiro anti-herói que vimos na vida, sempre defendendo os oprimidos dos de mau coração, dos criminosos e tudo mais, mas longe do politicamente correto. Ele mata pessoas, ele pega mulheres, ele fica bêbado", comenta.
"Todo mundo entre meus amigos lia esses gibis do Bonelli, todo mundo comprava na Croácia, nas férias", recorda o esloveno.
Em sua cabeça, a Amazônia passou a ser um lugar que precisava ser conhecido no futuro. Não foi uma história que despertou esse desejo, foi algo constante, gradual.
"Organicamente, veio a vontade de viver aventuras na Amazônia, conhecer povos indígenas."
O sérvio Janković acrescenta que quadrinhos "da escola italiana" faziam parte da biblioteca básica de qualquer família rural ou urbana da Iugoslávia.
"Meus pais liam esses gibis quando eram crianças, assim como minha tia e meu tio", pontua, frisando que sua família estava longe de ser elitista ou urbana.
Ele mesmo adquiriu o hábito por influência de um primo mais velho.
"E o Mister No sempre me pareceu o mais exótico, em grande parte por causa do cenário: a mítica floresta amazônica", explica.
Janković se recorda de folhear e se divertir com esses gibis antes mesmo de saber ler: coloria as cenas em preto e branco com canetinhas, dando cor às histórias e inventando os diálogos de um jeito bem infantil.
Mais tarde, quando aprendeu a ler, conta que se apaixonou de vez.
Assim como o esloveno Plestenjak, ele também tinha nas férias — em seu caso, nas praias de Montenegro — o momento ideal para o passatempo.
"Durante um mês inteiro, o gibi era item padrão na espreguiçadeira. E eu não era o único", diz.
Crédito, Edison Veiga
Mochileiro gringo na Amazônia de 'Mister No'
Quando se formou em economia, em 2002, Simon Plestenjak vendeu o carro que tinha e usou o dinheiro para fazer um mochilão. Ficou sete meses no Brasil. Pela primeira vez, ele visitaria a Amazônia de seus sonhos.
Logo que entrou em um barco de Belém a Manaus se sentiu ambientado nos quadrinhos de Bonelli.
"Sete dias dormindo na rede", recorda. "E as cenas todas que eu via, identificava as histórias do Mister No."
Fez amizade com um inglês, mochileiro como ele. Em Manaus, ambos queriam conhecer a selva, mas o pequeno orçamento que dispunham não dava para pagar por tours com agências. Resolveram que iriam sozinhos.
"Estávamos em um bar, e isso parecia historinha do Mister No, pois tudo começa em um bar. E lá tinha um casal, puxamos assunto. Um deles era médico, desses que viajam pela Amazônia, atendendo a comunidades ribeirinhas", conta o fotógrafo.
Quando o médico soube do plano, pegou um guardanapo e passou a desenhar um roteiro com as instruções: primeiro um ônibus até determinado porto. Depois, um barco até outra ponta. Então, outro ônibus até um vilarejo. E lá, que procurassem um conhecido dele, dono de uma loja de insumos agrícolas.
Os mochileiros levaram um dia inteiro para chegar ao local. Ofereceram uns dólares para o rapaz, falaram da indicação do médico, e ele os levou de barco até uma comunidade ribeirinha, com a recomendação para que ficassem na casa de uma família que ele conhecia.
"Vivemos lá por uma semana, pescando e fazendo todas as atividades do dia a dia deles", lembra.
Simon Plestenjak voltou para a Eslovênia mas o Brasil não saía de sua cabeça. Em 2005, mudou-se para São Paulo. Primeiro, virou professor de inglês. Decidiu depois estudar fotografia e se tornou profissional.
Esteve outras três vezes na Amazônia. Em 2019, passou dez dias com o povo indígena Yawanawá, no Acre — os acompanhando em caçadas, pescarias, preparo de comidas e outras atividades. Fotografou tudo.
A exposição Amazonija já foi exibida duas vezes em sua cidade natal, Bled — onde ele voltou a viver em 2024.
Do Bonelli, herdou não só a temática, mas também a estética.
"Muito me inspiro nos gibis quando enquadro a foto. O gibi tem sempre essa dinâmica do quadro bem equilibrado, momentos perfeitos. A ideia da fotografia é captar esse momento", analisa.
Crédito, Simon Plestenjak/ Arquivo Pessoal
O realismo dos gibis de Bonelli tem a ver com o perfeccionismo do quadrinista italiano em retratar as histórias com verossimilhança.
Gusman conta que, em uma época pré-internet, o estúdio da empresa em Milão contava com uma farta biblioteca repleta de referências de textos e imagens à disposição dos roteiristas e desenhistas, um material muito rico a respeito dos locais que eram ambientados nos gibis.
Assim como o fotógrafo esloveno, o historiador sérvio Janković também realizou o sonho de criança de conhecer o Brasil.
Ele comenta que as primeiras impressões do país, obtidas pela leitura dos gibis, "ficaram guardadas, em silêncio" e, "reapareceram e ganharam forma à medida que eu crescia".
"No geral, a imagem mental do Brasil era a de um paraíso perdido e imperfeito: um lugar onde a vida é vivida como ela é. Um país caloroso, temperamental, faminto por justiça social, mas que ostenta um sorriso largo e está sempre pronto para suportar inúmeras injustiças", recorda.
Em 2017, ele viajou por vários países da América Latina. No Brasil, viu apenas o Rio de Janeiro e arredores.
"Manaus permaneceu para mim um lugar abstrato, quase inalcançável", reflete. "Uma paisagem mais imaginada do que vivida."
"Talvez seja melhor assim. Alguns lugares foram feitos para permanecer inacabados ao longo de toda uma vida, preservados como ideias, e não como destinos, existindo em algum ponto entre memória, desejo e mito", comenta o historiador.
No Brasil, não pegou
De acordo com informações da Sergio Bonelli Editore, Mister No foi publicado, além da Itália, na Bósnia-Herzegovina, na Croácia, na França, na Grécia, na Índia, em Portugal, na República Tcheca, na Sérvia, na Eslovênia, na Espanha, nos Estados Unidos, na Turquia e na Hungria.
O gibi também foi publicado no Brasil, onde, contudo, o personagem nunca fez tanto sucesso.
Do mesmo Bonelli, Tex emplacou muito mais. Gonçalo Junior atribui a isso uma falta de cuidado editorial no trabalho com o personagem, inclusive com inconsistências e hiatos sem publicação.
"O Tex mexia com o imaginário dos bangue-bangues", compara Gusman. "Mister No nunca se firmou por aqui e é difícil apontar uma razão para isso."
Uma suposição é justamente pelo fato de as histórias, por serem ambientadas no Brasil, terem menos apelo exótico.
"Mesmo que a Amazônia seja desconhecida por boa parte dos leitores brasileiros de quadrinhos", pondera Gusman.
Di Lecce argumenta que uma razão pode ser o fato de que Mister No "é um personagem muito ligado a uma sensibilidade europeia".
Afinal, seu ponto de vista é o de alguém que viveu as agruras da Segunda Guerra e depois se refugia em um ambiente visto como incomum, insólito.
"Esta é a nossa impressão", afirma o editor.
Ele acrescenta que mesmo que suas histórias se passem sobretudo no Brasil, os lugares são narrados a partir de um olhar externo, que privilegia seus aspectos mais simbólicos e aventureiros.
"Mesmo sendo próximos em termos de ambientação, não é automático que o público brasileiro se reconheça neles", avalia.
Também é preciso considerar o momento histórico, segundo ele. Mister No é um personagem filho dos anos 1970, uma temporada cultural marcada pela figura do anti-herói e pela releitura crítica dos modelos clássicos.
"Essa sensibilidade encontrava terreno fértil sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, mas, no mesmo período, no Brasil, o mercado popular premiava séries e heróis mais tradicionais, sem mácula e que não se colocavam em questão, como é o caso de Tex."
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